Ray Dalio: Mercado será hostil para investidores sem experiência, diz o fundador da Bridgewater

Megainvestidor Ray Dalio prevê mercados em estagflação e desvalorização de moedas, e por isso recomenda a diversificação de portfólios individuais

Os mercados vão ser águas difíceis de navegar nos próximos anos. Serão hostis para investidores sem experiência, de acordo com o megainvestidor americano Ray Dalio, fundador da gestora de ativos Bridgewater. Para garantir retornos satisfatórios, é preciso estar atento à causa das instabilidades crescentes: a ordem mundial está em plena transformação.

Para os próximos anos, Dalio prevê uma economia global em estagflação, situação que pode já ter sido atingida, e a desvalorização das principais moedas. Como resultado, deverão sobrevir conflitos políticos, porque mensagens populistas são favorecidas, e possivelmente também bélicos, porque o equilíbrio de poder é delicado. Fatores de escala global, como a perda de influência dos Estados Unidos, a ascensão da China e as mudanças climáticas, fazem com que a diversificação dos portfólios seja indispensável para não perder dinheiro.

As previsões de Dalio são resultado de uma metodologia de análise dos mercados que alia uma série de indicadores sobre as tendências da economia com uma profunda convicção na importância de conhecer a história. Nas 560 páginas de “Princípios para a ordem mundial em transformação”, publicado neste ano no Brasil pela editora Intrínseca, o investidor expõe suas visões sobre o mundo atual a partir de comparações com eventos dos últimos quatro séculos.

Desde 2017, com a publicação de “Princípios: Vida e Obra”, Dalio se dedica a compartilhar sua filosofia e seus métodos de investimento. Nas redes sociais, compartilha vídeos curtos em que explica sua maneira de pensar, isto é, seus princípios. Em seu website, disponibiliza ensaios sobre o estado atual do capitalismo americano e o futuro da economia.

Dalio fundou a Bridgewater em 1975, aos 25 anos. Graças a inovações como a paridade de risco, a gestora se tornou uma das maiores do mundo, responsável por fundos de pensão como o do Banco Mundial. Dalio também chegou a ser o gestor de fundo de hedge mais bem pago do mundo. O investidor se notabilizou por projetar uma carteira de investimentos “all weather”, ou seja, capaz de ter bom desempenho em qualquer cenário, dos melhores aos piores.

Ao Valor, Dalio falou sobre suas ideias para a filantropia, pela qual é reconhecido, as microfinanças e as criptomoedas.

Seus artigos mais recentes apontam que a transição para uma nova ordem global está em curso. O senhor previu estagflação, populismo e conflitos bélicos. Como investir durante uma transição dessas? Que conselho o senhor daria para um profissional de classe média que busca investir para garantir uma aposentadoria confortável?

“Acho que a maior parte das pessoas que não são investidores profissionais excelentes, e na verdade a maior parte dos melhores investidores profissionais, vão se descobrir incapazes de responder aos movimentos do mercado em tempo hábil. Vão perder dinheiro na tentativa. Creio que a coisa mais importante que um investidor médio deve ser capaz de é diversificar, porque é isso que reduz os riscos sem reduzir os retornos. Neste momento, o mais relevante para os investidores é evitar ativos de dívidas. Coisas como acumular moeda e títulos, por exemplo. Porque agora esses investimentos já não dão retornos capazes de compensar o investidor pela inflação. É bem provável que um portfólio diversificado de ativos protegidos contra a inflação se saia melhor.”

Quando o livro foi publicado, a guerra na Ucrânia não havia começado. Como ela afeta seus cálculos? Por exemplo, o que mudaria nos indicadores que estão listados no livro? E como essa guerra altera o equilíbrio de poder que o senhor discute?

“É visível que os Estados Unidos e seus aliados já não são os poderes dominantes no mundo. Podemos ver que a China e a Rússia, com seus aliados, já constituem um outro lado com poder comparável. E podemos ver que estão dispostos à luta militar, embora ainda, a esta altura, de modo bastante restrito. Por enquanto, as guerras estão sendo contidas. Mas a história e a lógica mostram que não podemos estar seguros de que vão permanecer assim, porque quando um lado é colocado diante da perspectiva de derrota, tende a aumentar a aposta, na tentativa de evitar a pior perspectiva. Não estou dizendo que vai haver guerras cada vez maiores, mas digo, sim, que há riscos consideráveis de que isso aconteça. Então temos que ficar atentos aos sinais. Por ora, não houve guerras diretas entre as grandes potências. Enquanto continuar assim, o mundo está do lado seguro da linha. Mas se essa linha for cruzada, será extremamente preocupante.”

No fim do livro, o senhor prevê uma batalha entre a inventividade humana e desafios como o endividamento e, principalmente, a mudança climática. Esta última, por sinal, é considerada um desafio como nenhum outro na história. Como investir perante essa perspectiva?

“No meu portfólio, tenho apostas em ambos os lados: tanto a vitória da inventividade humana quanto a da estagflação. Acredito que são ambas igualmente prováveis e uma compensa a outra em termos de risco financeiro. Sobre a mudança climática, lidar com ela de modo eficaz vai ser muito custoso. Transformações grandes e caras precisam acontecer muito rapidamente, se queremos obter um efeito volumoso o suficiente para minimizar os problemas acarretados pela mudança climática. Por isso, minha expectativa é que seja caro tanto minimizar os efeitos da mudança climática quanto não minimizar, porque deixar as catástrofes acontecerem vai sair muito caro. E isso contribui para mais estagflação.”

No indicador de conflito interno, os Estados Unidos estão na pior posição entre os países selecionados para o livro. E a indicação é de uma situação que piora. O senhor vê risco para a democracia americana? Que efeito isto teria para o resto do mundo?

“Por enquanto, ainda coloco o risco de que aconteça nos Estados Unidos uma guerra civil, do tipo que descrevo no livro, por volta de uma chance em três. É claro que o efeito sobre o resto do mundo seria enorme, já que o enfraquecimento dos Estados Unidos representa o enfraquecimento da ordem mundial existente. A história mostra que as condições como as que existem atualmente conduzem normalmente a mais conflitos, o que se alinha a desafios econômicos e financeiros. Isso não significa que bons resultados finais são impossíveis. Pode ser improvável, mas ainda é possível que as pessoas inteligentes cooperem, em vez de brigar, com o objetivo de dar uma resposta adequada aos nossos desafios. O que mais me preocupa é que as pessoas não estão dando a atenção devida aos maus resultados finais a que provavelmente vamos chegar se a sequência típica dos eventos continuar no curso atual. Um dos meus princípios diz: “se você se preocupa, não há com que se preocupar. Se você não se preocupa, você precisa se preocupar”. O fato é que se você se preocupa com essas coisas, você é capaz de lidar com elas, seja coletivamente ou individualmente. Mas são realidades e precisamos reconhecê-las como tal.”

Como esse princípio se aplica ao cenário político?

“Nesse cenário, significa que precisamos de um centro político capaz e forte. Temos que agregar as pessoas. Rezo por um centro político forte, em que aqueles que estão no centro lutem contra os que estão nos extremos. Ainda existem mais pessoas no centro do que nos extremos, mas nos Estados Unidos elas não dispõem de um partido ou de coesão. Aqueles que estão nos extremos conseguem obter maior controle da situação, algo que ocorreu muitas vezes na história e é feio. Se olharmos para a revolução francesa, a russa, a chinesa, a espanhola, vamos ver que a polarização cresce, aqueles que se colocam no centro são vistos cada vez mais como fracos e são postos diante da obrigação de escolher um dos lados e lutar por ele. Não precisamos ser pessimistas se as pessoas conseguirem se comportar melhor umas com as outras. O mundo tem mais recursos do que jamais teve. E tem mais inventividade para produzir soluções. Basta olhar a velocidade com que produzimos as vacinas na pandemia. Há muitas razões para otimismo se formos capazes de trabalhar bem juntos para lidar com nossos desafios. Tudo se resume a pessoas trabalhando conjuntamente para cuidar dos princípios fundamentais que fortalecem os países, como a educação, a saúde, a responsabilidade fiscal e a infraestrutura.”

Em artigo sobre a China, o senhor afirma que os ativos chineses têm preços muito atraentes. Apesar da experiência das últimas décadas, o desempenho econômico chinês é subestimado?

“O que ocorre é que muitos dos ativos chineses estão precificados para uma situação desastrosa. Então acho que em comparação com o que é mais provável, esses preços são atraentes.”

No livro, o senhor alerta o leitor para o risco do endividamento e a desvalorização da moeda. Com a chegada da estagflação, a desvalorização do dólar está próxima?

“Na verdade, acho que todas as grandes moedas vão se desvalorizar. Em outras palavras, suas ofertas vão subir e seus valores vão cair em relação aos preços dos bens e serviços.”

Em outro texto, o senhor prevê que, no futuro próximo, haverá mais coordenação entre políticas fiscais e monetárias, denominando essa tendência como MP3. Como se dá essa coordenação?

“Já estamos entrando na era em que essas formas de coordenação serão a norma. Isso acontece porque o dinheiro precisa ser direcionado para as pessoas e as áreas que têm mais necessidade dele. Somente a política fiscal é capaz de fazê-lo, o mercado livre não consegue. E também o volume de crédito e moeda necessário vai exigir que os bancos centrais sejam mais ativos nos mercados, já que o mercado livre não vai determinar os preços e quantidades em níveis aceitáveis.”

Há alguns anos, o senhor se manifestou favoravelmente aos criptoativos. Como avalia o recente “inverno cripto”? As criptomoedas, por exemplo, devem se consolidar?

“Vejo as moedas como meios de troca e estoques de riqueza. Por isso, creio que as moedas digitais que são estáveis (stablecoins) terão mais sucesso do que a bitcoin e demais moedas digitais que não sejam eficazes como meio de troca ou reserva de valor. Essas são muito voláteis e, se eventualmente se tornarem mais eficazes que as moedas fiduciárias, os governos vão proibi-las.”

No mais recente Fórum Econômico Mundial, um grupo de milionários apresentou uma proposta pela qual eles mesmos deveriam ser mais taxados. Em seu artigo sobre a reforma do capitalismo, o senhor também propõe um aumento de impostos sobre os mais ricos. A que se deve esse recente movimento por maior taxação dos mais ricos?

“Para mim, é injusto e improdutivo que tanto dinheiro seja gasto em meio à decadência. Ao mesmo tempo, vastos segmentos da população não conseguem pagar pelas coisas mais básicas. A infraestrutura está entrando em colapso e estamos nos enfiando cada vez mais fundo em dívidas. É preciso gastar mais dinheiro e ele deve ser bem gasto, para que sejam obtidas melhorias fundamentais. Esse dinheiro não vai vir daqueles que não têm nenhum, então é evidente que impostos mais altos para os ricos são necessários. No entanto, estancar o desperdício e investir no aumento da produtividade são no mínimo igualmente importantes.”

O senhor também é conhecido pela filantropia e costuma ressaltar que é importante que ela seja eficaz, não só uma doação de dinheiro. Que tipo de mecanismo garante essa eficácia?

“O mais importante é entender os retornos sociais sobre o investimento. Isso é mais difícil do que medir os retornos econômicos. No sistema econômico capitalista, o lucro e o retorno sobre o investimento são fáceis de medir e fazem o mundo girar. Na filantropia, medir o sucesso é mais difícil. Dito isto, em muitos casos, e eu diria na maior parte deles, é possível ver se o dinheiro é bem gasto. Na verdade, vejo muitos programas excelentes que são subfinanciados e seria lucrativo se os governos os financiassem. Creio em parcerias público-privadas para financiar esses programas. Isso funcionaria bem porque acho que a dupla verificação da qualidade dos programas e o duplo financiamento são eficazes, se bem administrados.”

O mesmo vale para o microfinanciamento, que o senhor elogia em seus ensaios?

“Sim. O modelo de um programa de microfinanças é o mais importante. Trabalhei bastante com Muhammad Yunus e o banco Grameen. Investi grandes somas em seus programas. Sei que eles produziram um retorno social enorme com seus investimentos, ao mesmo tempo que outros programas que acompanhei não conseguiram produzir esses resultados.”

O senhor escreveu um artigo sobre a renda básica universal. Nesse texto, propõe maneiras de implementá-la e garantir que seja eficaz. Esta é uma parte importante da reforma do capitalismo que o senhor propõe?

“Para mim, a questão da renda básica universal gira em torno de entender se é um modo melhor de usar o dinheiro do que gastá-lo em programas direcionados. Isso depende do uso que as pessoas fazem do dinheiro que recebem. Em termos gerais, se o dinheiro é entregue para pessoas responsáveis que o usem com sabedoria, é melhor do que o gasto nos direcionados. Caso contrário, é um desperdício de dinheiro ou algo pior. O maior desafio é encontrar o jeito de fazer essa distinção. O que me interessa saber não é tanto se o dinheiro está indo para a renda básica ou para programas dirigidos: é saber se mais dinheiro está sendo investido sabiamente nas coisas que tornam as pessoas mais produtivas e aumentam suas rendas, como a educação e a saúde. Creio que a coisa mais importante é que cada criança tenha uma base aceitável e oportunidades iguais, e que não dispor de dinheiro suficiente não seja uma desculpa para que isso não aconteça.”

Em uma entrevista para a televisão americana, o senhor relata que uma das maiores lições que recebeu foi quando uma de suas previsões falhou, no início da década de 1980. Poderia detalhar um pouco o que mudou na sua visão naquele momento?

“Foi um erro muito doloroso, e as lições que aprendi melhoraram minha vida radicalmente. Fundei a Bridgewater em 1975, em meu apartamento de dois quartos. Eu negociava nos mercados e alguns anos mais tarde, em 1980, a empresa já contava com um pequeno grupo de pessoas. A essa altura, calculei que os bancos americanos tinham emprestado muito mais dinheiro para países estrangeiros do que eles seriam capazes de devolver. Disse, em público, que haveria uma crise de dívidas, ou seja, moratórias, e recebi bastante atenção por isso. Em agosto de 1982, o México entrou em moratória e outros países se seguiram. Por isso, pensei que atravessaríamos uma crise econômica. Adotei uma posição muito cautelosa no mercado de ações, mas o que aconteceu foi que agosto de 1982 acabou se revelando o fundo do poço nesse mercado.Eu não poderia ter errado mais gravemente. Perdi dinheiro meu e também dos meus clientes. Acabei ficando tão quebrado que precisei tomar US$ 4 mil emprestados de meu pai para pagar contas da família. Foi uma experiência que mudou minha vida. Me deu a humildade necessária para contrabalançar a minha audácia e me deu ganas de encontrar as pessoas mais inteligentes que pudesse, para que me questionassem e testassem as minhas ideias nas condições mais difíceis. Também me levou a procurar maneiras de aproveitar as situações positivas sem tanto risco, o que me ensinou a diversificar os portfólios. Esse foi o momento que mudou tudo para mim.”

Com pouco menos de cinco décadas de experiência em investimentos, o senhor acompanhou mudanças regulatórias e evoluções tecnológicas, além da própria expansão dos mercados financeiros. Como o senhor avalia as transformações das finanças nesse período?

“Apesar de todas essas evoluções, as finanças e os mercados permaneceram basicamente os mesmos. De fato, há instrumentos novos. Mas as dinâmicas básicas dos mercados, com suas bolhas e seus estouros, continuam iguais. O mesmo vale para como se comportam as ações, os títulos, as moedas, as commodities. É esse comportamento que as pessoas precisam entender para investir.”

O que torna um país atraente para investimento no seu fundo?

“Tenho três critérios principais para avaliar as perspectivas de um país e escolher meus investimentos. Primeiro, quero investir em países com boas bases financeiras. Ou seja, ganham mais do que gastam e têm significativamente mais ativos do que passivos, o que os torna capazes de aguentar turbulências e investir bem. Segundo, têm ordem interna, para que possam operar bem, em vez de lutas intestinas em torno de riqueza e poder. Terceiro, têm menor probabilidade de se envolver em guerras externas.”

Já faz alguns anos que o senhor vem publicando seus princípios e interagindo nas redes. Como tem sido o retorno dos leitores?

“Aos 73 anos, sei onde estou no meu ciclo de vida. Nesta etapa, em vez de obter mais sucesso para mim mesmo, quero passar adiante informações e conhecimentos que ajudem os demais a ter sucesso. Tem sido muito recompensador acompanhar as muitas pessoas, ao redor do mundo, que se envolvem com as ideias presentes no livro e as consideram valiosas. Tenho interagido bastante com as pessoas nas redes sociais e a experiência é muito gratificante. São pessoas que têm perguntas sobre meus princípios ou querem conversar sobre seus próprios princípios. Por sinal, este também é um dos meus objetivos: ajudar as pessoas a formular seus próprios princípios. Por isso, até o fim do ano devo publicar um diário, que acredito ser útil para elas.”

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