Profissionais do mercado alimentam perfis anônimos em rede social

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Mapeamento identificou postagens de 266 influenciadores, com 74 milhões de seguidores
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O Twitter apareceu como a rede mais usada pelos perfis dedicados
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No total, foram 160 mil vídeos publicados entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021
“NÃO sou a Leda Braga. NÃO sou a Zélia Cardoso. NÃO sou a Zênia Latif. NÃO sou a Maria Conceição Tavares. Trabalhei como funcionária pública de carreira por anos. Fiz consultoria para o GF [governo federal]. Sou CRO de um hedge fund com domicílio fora do Brasil. Nunca trabalhei em fundo aqui.”
Foi assim que @femisapien_z, um dos perfis de destaque da comunidade financeira do Twitter no Brasil, buscou elucidar um equívoco de alguns dos seus mais de 35 mil seguidores. A coincidência com aspectos da trajetória de Braga talvez tenha causado a confusão. As duas frequentaram a academia e fizeram carreira internacional, além de transitarem com desenvoltura no universo quantitativo.
Só que Braga, fundadora e CEO da gestora Systematica Investments, é engenheira mecânica com doutorado pelo Imperial College, de Londres, costuma ser avessa a entrevistas. Femi, como é chamada nas interações na rede social, é economista, com mestrado e doutorado em finanças e economia, mas prefere manter a identidade sob anonimato.
Ela apareceu como uma das figuras mais frequentes no Twitter na categoria trader, com 1,8 mil publicações, segundo mapeamento de influenciadores de investimentos recente feito pela Anbima com a consultoria EY, e publicado em junho. O Twitter aparecia como a rede mais usada pelos perfis dedicados, com 71,04% das publicações entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. No total, foram 160 mil vídeos e postagens de 266 influenciadores, com 74 milhões de seguidores.
Como Femi, outros profissionais do mercado financeiro recorrem a pseudônimos para se manifestar nas redes sociais, caso de @beth.da.farialima, com 61,2 mil seguidores no Instagram, @farialima.elevator, com 407 mil (e 165,4 mil no Twitter), o “discípulo” @arthurito.farialima (100 mil) ou o @tioricco, com 220 mil. São perfis que têm dividido a experiência em investimentos com pitadas de educação financeira.
A inclinação estatística, a matemática aplicada a dados e a habilidade para programar vem desde a época do bacharelado, conta Femi. Seu projeto de pesquisa envolveu modelos ligados à bolsa e foi a porta de entrada para um estágio, já no mundo quantitativo, em plena crise de 2008. “Naquele ano, o fundo [para o qual trabalhava] ganhou 42%, enquanto o S&P500 caiu 38%. Quando voltei para o Brasil, vi muitas oportunidades. Nos EUA é um pouco mais difícil ter espaço para a estratégia quantitativa de garagem porque o mercado é muito eficiente, tem muita gente fazendo arbitragem. No Brasil, tem várias distorções todo dia.”
A formação, que incluiu até aulas com Nobel de economia, a leva a olhar primeiro para o modelo de análise tradicional “top-down” de ações, que parte dos fatores macroeconômicos, passa pelo setor, até chegar à avaliação da empresa. Identificada a tendência, entra a base estatística, a construção dos algoritmos. Femi negocia também títulos públicos, juros futuros, dólar e todo tipo de derivativo listado. Suas interações no Twiter começaram em 2017, na primeira febre do bitcoin.
No curriculum ela traz a estruturação de área de controle de fundo, criando modelos de risco e auditoria aderente às regras da Securities Exchange Comission (SEC, a CVM americana). Hoje, Femi atua na gestão da própria carteira própria e presta consultoria para fundo internacional. Se filiou também ao grupo educacional Quantzed, um dos que disseminam a escola quantitativa no Brasil, que tem sido usada não só por fundos dedicados como por assets tradicionais.
Ativa no Instagram, outra voz feminina que ganhou a comunidade financeira virtual é a de Beth da Faria Lima, que se vale da imagem da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e da família real para criativos memes que retratam o modo de vida da região que é o coração das assets e de bancos de investimentos em São Paulo. Não esconde suas paixão por sapatos da grife Loubotin, mas também faz compras nas lojas populares do entorno da José Paulino, no Bom Retiro.
Graduada em finanças numa universidade pública e com pós-graduação em mercado de capitais, Beth começou como estagiária num grande banco onde fez carreira. Passou por outras instituições financeira e atualmente diz trabalhar como “monarca na Faria Lima e no mercado financeiro, nas horas vagas”.
A imagem da realeza veio do apelido que um estagiário deu a ela, “rainha do mercado financeiro”. O perfil surgiu como uma brincadeira, algo como a versão feminina desse universo maioritariamente masculino que povoa o setor. Virou uma espécie de cronista da Faria Lima, e uma das missões, no início, era unir corações solitários. Com o tempo, ela percebeu que as pessoas estavam interessadas em outros assuntos. “Não só de dates bizarros vive a Faria Lima”, afirma.
Na última semana do investidor, promovida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pela B3, no início do mês, a profissional participou com a sua personagem de um painel chamado “Fato ou Fake — verdades e mentiras do mercado financeiro”. Beth se diz uma apaixonada por educação financeira, mas não tem a pretensão de se tornar um canal dedicado. O perfil já tem se monetizado, com parceiros com quem tem afinidade, diz.
Beth também aproveitou o engajamento na rede social para uma campanha contra assédio moral. “Eu entrei no mercado muito nova e passei por diversas situações de assédio. Quando atingi 50 mil seguidores resolvi que era hora de aproveitar aquele espaço para ajudar outras pessoas”, conta. Surgiu daí o BethinhaDireta, um canal de denúncia que em conjunto com a @redecomadresorg dá apoio jurídico, psicológico e moral às vítimas de constrangimento no trabalho.
Questionada sobre o que esperar para as eleições de 2022, ela responde que “na qualidade de monarca”, não discute política. Para o investidor, deixa um conselho precioso: “Cuide dos seus investimentos como quem faz um brigadeiro: com paciência no fogo baixo e sem pressa para comer. Do contrário, queimará o fundo da panela e, de quebra, a língua.”
Entre os perfis novatos anônimos da rede, Arthurito da Faria Lima estreou em julho do ano passado, “em pleno ócio criativo da pandemia”. Foi uma forma de expressar alguns pensamentos, opiniões e críticas sobre o mercado financeiro e também sobre o “lifestyle” da Faria Lima”, conta por e-mail.
Ele não abre qual a formação acadêmica, empresa ou área de atuação, mas diz que trabalha há mais de dez anos no mercado financeiro e é também morador do “condado” da Faria Lima. O intuito era ter um meio para troca de conhecimento, sem a pretensão de se tornar um canal de educação financeira à imagem e semelhança dos que têm se multiplicado nas redes. “Já tem muita gente vendendo curso com ‘arrasta para cima’ no stories”, diz. “Se por um lado eu compartilho minha visão do mercado e tiro dúvidas sobre alguns temas nas interações no stories, por outro eu aprendo demais a me comunicar melhor, a entender os anseios e dificuldades do investidor pessoa física.”
Para Arthurito, o maior educador financeiro no Brasil nunca vendeu um curso sequer. “Estou falando de quase três anos com consecutivas quedas na taxa de juros”, afirma. “Quando o investidor vê a Selic a 2%, ele precisa buscar yield em algum lugar e, naturalmente começa a estudar outras opções de investimento. Não à toa vimos a B3 bater recorde de CPFs operando ações.”
Agora, às vésperas de uma nova eleição presidencial e com temas na pauta que podem colocar em xeque as âncoras fiscais do país, Arthurito vê o Brasil na encruzilhada do baixo crescimento que prevaleceu na última década. O dilema dos precatórios, do auxílio do governo para repaginar o Bolsa Família e o impasse para tocar a reforma tributária deixam um rastro para muito ruído. Não fossem esses pontos, o Brasil estaria atraindo um fluxo maior de capital estrangeiro, valendo-se ao menos do diferencial de juros para operações de “carry trader” (arbitragem entre taxas externas e locais).
O empurrão para a criação do perfil veio do “brother” Faria Lima Elevator, que preferiu não dar entrevista. Há quem diga que são a mesma pessoa. Numa conversa mais antiga, o Faria Lima contou que o perfil foi inspirado no Goldman Sachs Elevator, página famosa de Wall Street , com mais de 1 milhão de seguidores só no Instagram. A ideia foi trazer para o contexto brasileiro o mundo da Faria Lima, o hábito das pessoas, a relação entre as gerações e também o movimento dos ativos financeiros.
No ano passado, no meio da pandemia, o perfil criou a biblioteca do condado, com a indicação de diversos livros relativos ao mercado financeiro, economia, estatística e história. “Não espere leituras fáceis, agradáveis e muito menos com fórmulas mágicas. O autor não está nem aí para você”, escreveu num post fixado no Twitter. Ao clicar nos links das publicações no repositório, o aprendiz é levado para o site da Amazon — é remunerado por isso. Para quem se interessa por investimentos é uma seleta trilha de conhecimento.
Já o Tio Ricco talvez seja o perfil que começou toda essa onda de mistérios. Publicamente, sua a voz frequenta eventos da B3 e da XP. Mais recentemente, ele criou ao lado do radialista Daniel Zukerman, do “Pânico”, da Jovem Pan, dono do jargão o programa “Muito risco pouco ego”, um dos seus principais jargões. Eles falam de ciclos econômicos, ativos, temas que influenciam os preços como a polarização Lula/Bolsonaro, e também entrevistam executivos do mercado. Tudo com humor e na linguagem dos mortais.
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