Ações do varejo: quais empresas devem resistir à tempestade perfeita de 2025?

Bancos revisam projeções para as ações do varejo e apontam quais empresas podem oferecer bons retornos aos investidores em 2025

Empresas citadas na reportagem:

Um relatório feito pelo BTG, que considera as percepções dos executivos do varejo, apontou que o setor tem uma visão de “otimismo cauteloso” para o curto prazo. O mercado financeiro, por sua vez, aponta também alguma expectativa positiva para alguns players. Afinal, vale investir em ações do varejo para 2025? A resposta é sim, mas é preciso escolher bem.

Vale mencionar que o setor passa por uma redução de alavancagem nos últimos anos. Além disso, há recuperação do volume de vendas e aumento de preços.

Por outro lado, as companhias têm adotado estratégias mais conservadoras diante de um cenário de tempestade perfeita. Isso inclui restrição de crédito, projeções de PIB e renda mais moderadas e inflação e juros altos.

Por tudo isso, bancos como o BTG têm ajustado algumas projeções para o setor, com preço-alvo mais baixo que o divulgado anteriormente. Mas com ampla gama de empresas com recomendação de compra.

Ações do varejo: recomendações do BTG

EmpresaAtivoRecomendaçãoPreço-alvo
AzzasAZZA3CompraR$ 49
C&ACEAB3NeutraR$ 15
RennerLREN3CompraR$ 20
Track&FieldTFCO4CompraR$ 14
VivaraVIVA3CompraR$ 32
Grupo SBFSBFG3CompraR$ 16
VulcabrasVULC3CompraR$ 20
VesteVSTE3CompraR$ 12
AssaíASAI3CompraR$ 9
CarrefourCRFB3NeutraR$ 10
MateusGMAT3CompraR$ 10
GPAPCARNeutraR$ 4
Mercado LivreMELI34CompraR$ 112
Magazine LuizaMGLU3CompraR$ 14
Casas BahiaBHIA3NeutraR$ 3
Raia DrogasilRADL3CompraR$ 28
PanvelPNVL3CompraR$ 12
SmartfitSMFT3CompraR$ 27
PetzPETZ3NeutraR$ 5
Quero QueroLJQQ3CompraR$ 4
CVCCVCB3NeutraR$ 3
Projeções divulgadas em relatório do dia 21 de janeiro de 2025 pelo BTG

Brasil está no centro das atenções dos investidores americanos, diz Citi

O Citi divulgou recentemente algumas percepções sobre o varejo brasileiro. Em seu relatório, o banco estrangeiro firma que ao conversar com investidores americanos percebeu que “surpreendentemente, desta vez, o Brasil esteve no centro das atenções, pelo menos em relação ao México”. Vale mencionar: o México é um dos concorrentes do Brasil no que diz respeito à competição pelo capital americano.

Para o banco, as ações das empresas brasileiras do setor de varejo e consumo já foram impactadas pelo cenário fiscal desafiador. Nesse sentido, “qualquer mudança potencial no sentido de uma administração mais responsável do ponto de vista fiscal pode desbloquear vantagens consideráveis”, avalia o Citi.

Contudo, tanto Citi quanto BTG enxergam oportunidade no varejo fora do Brasil. O Mercado Livre é uma das grandes apostas dos bancos. Apesar de não ser uma empresa brasileira, ela depende bastante da demanda local, afinal, o Brasil é seu maior mercado.

O Citi menciona Lojas Renner, Vivara e Smartfit como nomes citados pelos investidores americanos. O varejo alimentar também recebeu alguma atenção, mas, segundo o banco, foi algo marginal.

Juros podem ‘atenuar reação’ do varejo, diz BTG

Em outro relatório, desta semana, o BTG aponta que 2024 foi o ano de melhora dos fundamentos dos varejistas, principalmente com relação às margens. Por outro lado, cresceram preocupações com perspectivas macroeconômicas do País.

Agora, a principal questão em 2025 depende de quanto tempo os fundamentos reagirão em um cenário de taxas mais altas.

“Como mencionamos nos últimos trimestres, os varejistas ainda operam em um mundo alavancado.” Nesse sentido, “a postura mais racional de alguns varejistas deve significar que a conversão do Ebitda em fluxo de caixa deve melhorar. Isso pode aumentar a criação de valor para os acionistas, mas com o risco de taxas de juros mais altas nos próximos trimestres, o que pode atenuar essa recuperação”, avalia o BTG.

Varejo pode ter menos influência no PIB

As vendas no comércio podem crescer 5% em 2024, segundo projeção do IBGE, o que seria o melhor cenário desde 2013. Porém, o desempenho na bolsa foi de queda em bloco do setor de varejo. Com raras exceções. Isso porque os preços dos ativos refletiram, principalmente, a expectativa futura com o cenário macroeconômico.

“Como a análise macro futura prevê que a sustentabilidade desse crescimento está abalada pela alta da inflação e por um novo ciclo de alta da Selic, ficou mais claro que a demanda no setor de varejo pode ser declinante”. A avaliação é de Monica Araújo, estrategista de alocação da InvestSmart XP.

“Além disso, temos que considerar o nível de alavancagem das empresas e da pessoa física também, componentes importantes para o desempenho do setor”, acrescenta.

Nesse sentido, o endividamento das famílias, que vinha em trajetória de queda no primeiro semestre de 2024, voltou a crescer a partir do segundo semestre de 2024. Agora, a trajetória de aumento na taxa de juros tende a aumentar a pressão sobre o setor.

Um outro ponto destacado por Araújo é que, com o aumento da Selic, a expectativa para esse ano é que haja uma redução da participação do consumo das famílias no PIB, o que também torna o cenário desafiador para as empresas do varejo.

BTG mantém otimismo, mas reduz perspectiva de alta

Assim, o BTG diz que assume “uma postura mais conservadora em relação aos varejistas”. O banco diz que ainda vê um lado positivo para o setor após a recente queda das ações, mas que o cenário macro desafiador exigiu recalibragem das expectativas.

“Reduzimos nossos preços-alvo devido ao maior custo de capital (+50bps em média).”

Ações do varejo que podem ter maior destaque

O BTG diz que mantém o “mantra para investir em varejo em 2025: baixa alavancagem financeira e momento operacional decente. Nesse sentido, Mercado Livre, Grupo Mateus, Smartfit e Vivara são as opções apontadas pelo banco.

Para o Citi, os destaques são Mercado Livre, Renner, Vivara e Smartfit. O Mercado Livre tem fôlego para mais crescimento via vendas por cartão de crédito. Contudo, há riscos nesse segmento relacionados à alta dos juros.

temporada de balanços; ações
Fachada de unidade da Lojas Renner (LREN3). Foto: Divulgação

A Renner tem atraído investidores por conta da sua história recente e, mais especificamente, por causa do robusto balanço de caixa da companhia.

Já a Smartfit tem se mostrado mais atrativa, segundo o Citi, depois da revisão de seu plano de expansão. Contudo, há temores relacionados à liquidez limitada e uma possível venda de parte da participação do Pátria na companhia. O fundo de private equity detém 30% da Smartfit.

Por fim, a Vivara também tem despertado interesse. Há um certo otimismo relacionado aos novos CEO, Icaro Borello, e CFO, Elias Lima.

Preocupações para 2025: Itaú BBA está reticente com o varejo

Apesar do bom desempenho operacional de diversas empresas em 2024, com aceleração das vendas em relação a 2023 e expansão de margem, o mercado financeiro tende a antecipar movimentos futuros.

Diante disso, o cenário macroeconômico mais desafiador para o ano que se inicia “gera incertezas no setor, podendo levar a revisões para baixo nas estimativas de lucro das empresas”. A percepção é de Rodrigo Gastim, analista de varejo do Itaú BBA.

Dessa maneira, “o aumento de incerteza contribuiu significativamente para a performance negativa das ações do varejo”, acrescenta Gastim.

Agora, as atenções estão voltadas para o aperto no crédito, que pode achatar o consumo. “A maioria dos players tendo reduzido suas carteiras de crédito, com um aumento na aversão ao risco para os próximos trimestres”, diz relatório do BTG.

Além disso, há preocupações sobre a capacidade de as empresas repassarem preços ao consumidor. Vale lembrar que o dólar vem recuando nas últimas semanas, o que pode reduzir a pressão inflacionária. Contudo, as projeções para o IPCA seguem em tendência de alta, podendo chegar a 5,5%.

Importante destacar ainda a reforma tributária, que pode levar ao aumento de carga tributária para as empresas do varejo nos próximos anos.

Setores mais resilientes

Para Gastim, segmentos não discricionários, como o varejo de alimentos e farmácias, tendem a ser mais resilientes em períodos de adversidade. Por outro lado, setores como vestuário e calçados e eletrônicos e móveis, podem sofrer mais.

“Diante de um cenário de inflação elevada e taxas de juros crescentes, preferimos empresas expostas a um público de maior poder aquisitivo e/ou que atuam em setores não discricionários”, acrescenta.

Magazine Luiza deve seguir em situação adversa

Nesse sentido, empresas como Magazine Luiza, que chegou a ser a grande sensação da bolsa, podem enfrentar novas dificuldades.

“Embora a companhia tenha expandido sua atuação no e-commerce e diversificado seu portfólio de produtos, uma parcela relevante de sua receita ainda provém do segmento de eletroeletrônicos, em que a demanda tende a ser altamente sensível a períodos de juros elevados”, avalia Gastim.

“Além disso, investidores também monitoram a performance dos principais competidores, que têm conseguido entregar crescimento sólido no Brasil por vários trimestres consecutivos”, arremata o analista do BBA.

Detalhe de site do Magazine Luiza (MGLU3). Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/Reuters

Alguma recuperação judicial no horizonte?

Para Gastim, não há nenhum risco identificado no horizonte para as empresas do setor acompanhadas pelo BBA. Essa dissipação dos riscos depois de casos como a fraude nas Americanas e da recuperação extrajudicial da Casas Bahia está relacionada à melhora da rentabilidade das companhias nos últimos anos, que entregaram resultados mais consistentes e reduziram níveis de alavancagem financeira.

“Esse conjunto de fatores contribui para mitigar os riscos de insolvência”, avalia.

Mas há quem ainda enxergue riscos importantes no setor. “Acreditamos que o cenário de aumento de RJs pode se estender em 2025”, diz Monica Araújo, estrategista de alocação da InvestSmart XP.

Contudo, a especialista pondera que a pressão maior deve ser fora da bolsa de valores, nas pequenas e médias empresas, “que têm mais dificuldade de acessar o mercado de crédito e pagam spreads ainda maiores”.

“Com a trajetória da Selic em alta e a necessidade de redução do consumo doméstico, a estrutura de um passivo equilibrado é vital para passar por um período de queda nas vendas, despesas financeiras maiores e grande competição”, diz Araújo.

Leia a seguir