CEO da B3 teme fuga de analistas estrangeiros cobrindo ações brasileiras

Gilson Finkelsztain alerta para 'perda total de relevância' da bolsa local

Empresas citadas na reportagem:

Por mais que o mercado de ações brasileiro esteja barato sob qualquer métrica de valor, se não pavimentar o caminho para controle das contas públicas o país corre o risco de perder total relevância para os investidores estrangeiros, segundo o executivo-chefe (CEO) da B3, Gilson Finkelsztain.

Em evento de premiação de gestores do “Infomoney”, ele citou que o peso de Brasil nos índices de mercados emergentes, que chegou a ser de 16%, 17%, hoje se situa em 4%, “com viés de baixa”.

“Chega num ponto em que o gestor global fecha posições no time dedicado a Brasil, deixa de olhar o mercado e compra ETF [fundo de índice], vai ter menos analistas cobrindo as ações”, afirmou. “Tem luz no fim do túnel, mas precisa reverter essa tendência.”

Brasil poderia se beneficiar com Trump? CEO da B3 responde

Finkelsztain disse que os estrangeiros estão “atônitos com o apreçamento dos ativos brasileiros”. Que algumas companhias que hoje são negociadas a 10 vezes o preço/lucro (que dá uma ideia do prazo de retorno do capital), se o CEP fosse na Índia estariam num múltiplo entre 30 e 35 vezes.

“Os gestores estão inquietos, com certa propensão a comprar. Mas têm sido remunerados pela espera.” Um câmbio mais estável ajudaria. “Mas vai ter emoção.”

Então, num momento em que é difícil para os gestores de recursos globais interpretarem quais dos posicionamentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vão virar ação, Finkelsztain afirmou que o Brasil poderia se beneficiar de um eventual deslocamento de capital do mercado americano.

Puxado pelas empresas de tecnologia, o índice S&P 500 negocia hoje numa razão de 23 a 25 vezes o lucro das companhias listadas. Enquanto os emergentes têm uma relação de 12 vezes, e o Brasil, de 7. “Tem oportunidade, deve haver algum rebalanceamento de ativos para emergentes”, afirmou. “Mas a gente está lá atrás nessa corrida de cavalinhos.”

Agenda econômica

Adicionalmente, o CEO da B3 espera que 2025 seja outro ano complexo. As eleições ainda estão muito distantes e, para o mercado destravar, é preciso saber como vai ser 2026.

Ele disse que as 25 medidas levadas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao presidente da Câmara, Hugo Motta, têm propostas boas, como a taxonomia do carbono, a reforma tributária. Contudo, se misturam com pautas que aumentam despesas, a exemplo da promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de isentar de imposto as rendas de até R$ 5 mil.

“Não é isso o que o Brasil precisa, precisa trocar o discurso de que está cumprindo o arcabouço no curtíssimo prazo para um em que não tenha problema de default no médio e longo prazo. A visão de arcabouço não é para o mês ou trimestre que vem, é para os próximos três a cinco anos.”

Efeito da alta da Selic

Já para José Berenguer, CEO do Banco XP, o Brasil tem muito ativo barato. E a comparação com múltiplos de outros mercados mostra uma defasagem que em algum momento vai ser arbitrada e corrigida. “Quando isso acontecer, a porta vai ser estreita e o investidor pode não conseguir montar a carteira da forma que gostaria”, afirmou.

Comparado a outros períodos de estresse de mercado do passado, Berenguer disse que a crise hoje “é inexistente”. “Não há nada anômalo, ninguém quebrou, nem ‘circuit braker’ teve na bolsa nos últimos três meses, apesar das oscilações grandes”, comentou.

“O mercado permaneceu funcional, houve um deslocamento de preços relevantes. Mas nada fora do script. Houve um ajuste da taxa de câmbio, do Ibovespa, começa a haver certa normalidade com visibilidade para o próximo ciclo político de 2026.”

A inflação, segundo o executivo, vai cair. “Não tem como um choque monetário não produzir efeitos”, afirmou. Referindo ao processo de aumento da Selic que já colou a taxa básica da economia em 13,25% ao ano.

Com informações do Valor Econômico

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