Os avanços da tecnologia e os atrasos no pensamento

Março é o mês da mulher, e com isso nada mais justo que este artigo seja sobre elas. Eu particularmente tendo a achar um pouco clichê termos o Dia Internacional da Mulher – afinal, diversidade de gênero deveria ser um tema pensado todos os dias. Porém, como mulher atuando na interseção do mercado financeiro e da tecnologia, não posso negar que o tema é, sim, muito importante e urgente.
O fato é que estamos ainda muito longe da equidade de gênero nos mercados em que eu atuo, mas estou ciente que já caminhamos muito nessa direção.
Por isso, em vez de falar aqui sobre as medidas que precisariam ser tomadas por parte das empresas (afinal muitas delas já o fizeram) eu vou abordar o tema sob outra ótica: vou usar a própria tecnologia para evidenciar o tamanho do problema e discutir porque é importante agirmos.
Eu poderia começar jogando os números aqui – que são evidentemente discrepantes (coisa que vocês leitores devem saber). Para ser mais explicita e criativa, no entanto, eu resolvi recorrer à própria tecnologia, que é a minha paixão, para mostrar o tamanho do problema.

Para quem não sabe, no finalzinho de fevereiro, com o anúncio da saída de Susan Wojcicki do Youtube, o Vale do Silício perdeu a última CEO de uma geração de mulheres líderes em tecnologia. Quase todas substituídas por homens.
Em uma era de ChatGPT e de grandes avanços na Inteligência Artificial, eu resolvi dividir com vocês uma prática que faço com bastante frequência com diversos nomes e palavras do meu interesse (sim, eu sou uma geek nesse nível): jogar o nome da Susan no Google para ver as sugestões da ferramenta de autocomplete.
Basicamente, o que essa ferramenta faz é tentar poupar o nosso tempo sugerindo buscas relacionadas à palavra que estamos digitando. Ao fazer isso, o Google entrega também o que outros usuários têm pesquisado sobre o tema.
Vejamos então o que as pessoas perguntam em inglês e querem saber sobre a agora ex-CEO do Youtube:
• Susan Wojcicki pronounce
• Susan Wojcicki salary
• Susan Wojcicki house
• Susan Wojcicki age
• Susan Wojcicki spouse
• Susan Wojcicki sister
• Susan Wojcicki email
• Susan Wojcicki linkedin
• Susan Wojcicki height
Sabemos que é natural a curiosidade acerca da vida privada de pessoas públicas. É compreensível que as pessoas se perguntem sobre quanto ganha uma grande executiva. Mas de onde vem todo esse interesse em coisas como a idade, o marido, a casa, a irmã e até a altura de uma grande executiva?
Será que as mesmas perguntas são feitas sobre homens na mesma posição? Vejamos o que acontece quando pesquiso o nome de seu sucessor no cargo mais alto do YouTube, Neal Mohan:
• Neal Mohan net worth
• Neal Mohan salary
• Neal Mohan wikipedia
• Neal Mohan family
• Neal Mohan twitter
• Neal Mohan bio
• Neal Mohan blog
• Neal Mohan biography
De repente, a curiosidade muda completamente de figura. Em vez do interesse no cônjuge e em características físicas, o autocomplete de Neal revela um interesse muito mais de acordo com a posição que ele ocupa e com a curiosidade em saber mais sobre a carreira ou suas opiniões: Wikipedia, bio, biografia, blog
E não é incrível que no caso dele o interesse em saber se é ou não casado, se tem filhos ou não, se realize através da palavra “família”, enquanto no caso dela as pessoas já partam direto para spouse (cônjuge).
Problema estrutural
Bom, sem me estender tanto acerca dos resultados, esse exercício com tecnologia mostra o óbvio – é um problema estrutural. No Brasil, as mulheres são minoria na área de tecnologia, mas vêm ganhando terreno nos últimos anos.
Entre profissionais contratados no setor de TIC (Hardware, Software, Serviços e Comércio) em 2021, 38,6% eram mulheres — um avanço em relação ao número de 2020, que foi de 32,6%, de acordo com um estudo da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação).
Já no mercado financeiro, de acordo com dados da B3, o mercado nacional é composto de 76,38% de homens. As mulheres ocupam apenas 23,62% dos postos.
Por que precisamos urgente mudar isso? Por que isso é extremamente importante? Primeiro, quanto mais diverso for o time, maior será o número de ideias diferentes sendo apresentadas.
Consequentemente, há um aumento da criatividade organizacional, dando espaço para um dos fatores mais importantes para o sucesso de uma empresa: a inovação.
Falando em números, segundo um estudo recente da McKinsey & Company, organizações com diversidade de gênero, têm 15% a mais de chances de ter rendimentos acima da média. Já, de acordo com a consultoria americana Exude, uma equipe com equidade entre homens e mulheres gera em média uma receita 19% maior do que as que não são diversas.
Ainda segundo a Exude, uma liderança mista também gera um crescimento de receita em média na ordem de 45%, vis-a-vis um crescimento de 26% entre as que não possuem o mesmo nível de diversidade.
Essa equidade é uma batalha longa, difícil, e desafiadora para todos nós. Porém – muito necessária. Gostaria que já na geração dos meus filhos, isso não fosse mais uma questão. Será que chegamos lá? As grandes organizações já deram um primeiro passo.
Agora, cabe a cada um de nós – homens e mulheres – pensarmos nisso e promovermos essa agenda em todos os fóruns. Se cada um fizer sua parte, tenho certeza que chegamos lá mais rápido.
Por Julia De Luca, especialista em tecnologia e investimentos no IB do Itaú BBA. Artigo originalmente publicado na coluna mensal ‘Tête-à-Tech’, no Feed de Notícias do íon Itaú. Para ler este e outros conteúdos, acesse ou baixe o app agora mesmo
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