Análise: Entenda as verdadeiras lições que o título da Argentina dá para o Brasil

Campeã mundial, a Argentina foi um seleção que fez churrascos aos montes na passagem pelo Catar. Provocaram? Aos montes. Dançaram? Muito. Vários jogadores tem cabelo pintado e a comissão técnica é recheada de ex-atletas. Até Sergio Aguero, que sequer faz parte da delegação, esteve na concentração. Isso prova que, entre os vários argumentos buscados para justificar a eliminação do Brasil, colocar a culpa nesses fatores extracampo chega a ser infantil. O futebol não é ciência exata. Então, é preciso saber quais as verdadeiras lições que o título dos hermanos nos dá.
É impossível associar o título de uma Copa do Mundo a um ou dois fatores. Mas é possível perceber pontos que fazem sentido quando comparamos a Argentina, campeão da Copa do Mundo ao vencer a França nos pênaltis, com o Brasil, eliminado nas quartas de final para a modesta Croácia. Afinal, se a seleção argentina também não enfrenta europeus, como ter sucesso?
Neste ponto, é possível fazer uma mea-culpa com a CBF. A dificuldade de fazer amistosos contra europeus existe, mas não pode ser usada como desculpa. Talvez a questão principal na diferença entre as seleções seja o fator emocional: enquanto o Brasil desmoronou no lado psicológico após sofrer o empate da Croácia, a Argentina conseguiu reagir mesmo perdendo uma vantagem de dois gols na decisão. Diante da França.
Lionel Scaloni também apresentou uma variação de táticas e ideias que Tite, apesar de ser um dos melhores treinadores brasileiros na atualidade, deixou a desejar. O comandante da Argentina não repetiu escalações em todo o mata-mata. Mudou o meio-campo para ter mais consistência diante da Austrália, colocou três zagueiros contra a Holanda, reforçou a linha de volantes contra a Croácia e apostou em Di María diante da França. Acertou em todas as escolhas.
Fora isso, Scaloni teve coragem para colocar Enzo Fernández e Julián Alvarez como titulares no meio da Copa do Mundo, colocando Paredes e Lautaro Martínez no banco de reservas. Tite tirou Fred e colocou Vinicius Junior como titular. Acertadamente. Mas só. Faltou ideias para furar o bloqueio da Croácia.
A última crítica a Tite também pode se reservas a Neymar: o melhor jogador tem que iniciar cobrando a disputa de pênaltis. Lionel Messi e Kylian Mbappé mostrarm isso. Claro, porque há chance de o melhor cobrador não ter tempo de fazer a sua cobrança.
Por fim, não chega a ser uma crítica direta a Neymar, que fez uma boa Copa do Mundo dentro de suas limitações devido a lesão sofrida. Mas é preciso que o camisa 10 chame a responsabilidade quando é necessário. O que se espera de um camisa 10 da seleção brasileira é algo parecido com o que Messi e Mbappé fizeram nesta decisão.
Faltam quatro anos até 2026. Mas as lições precisam ser aprendidas.
Por Marcello Neves, repórter do jornal O Globo.
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