Atividade, juro e câmbio sugerem 2022 difícil

Para FGV Ibre, incertezas eleitorais e externas turvam ainda mais o cenário para o próximo ano
Pontos-chave
  • A inflação alta e persistente corroeu o poder de compra das famílias ao longo de 2021

  • A necessidade de aperto monetário piorou as condições de crédito e do mercado de trabalho

  • Quadro contribuiu para a desaceleração da indústria e do comércio

Depois de perder fôlego em meio a ventos contrários como menor impulso da vacinação e inflação alta, a economia brasileira começa 2022 com uma coleção de más notícias. Em sua edição de dezembro, o Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) observa que 2022 será um ano difícil diante da atividade perdendo tração, juros e taxa de câmbio pesando contra a recuperação, e incertezas decorrentes da eleição e do cenário internacional.

A expectativa do FGV Ibre é que a economia cresça 0,6% no quarto trimestre, ante o trimestre imediatamente anterior, com retomada gradual do setor de serviços, mas com a indústria ainda com dificuldades. O setor de serviços deve expandir 1,3%, enquanto a produção industrial pode ter contração de 2% no último trimestre do ano.

O documento lembra que a recuperação se mostrou forte no primeiro trimestre, mas frustrou bastante desde então, com uma reação menor do que a esperada à vacinação e ao controle parcial da pandemia. Já a inflação surpreendeu sistematicamente para cima, com implicações para 2022.

“No início do segundo semestre, a atividade se comportou conforme esperado, mas a pressão inflacionária foi mais intensa que o previsto: crise hídrica, taxa de câmbio depreciada, prolongamento do choque de oferta de insumos industriais e preços elevados do petróleo contribuíram, em grande medida, para este resultado”, diz o texto.

Com a inflação alta e persistente corroendo o poder de compra das famílias, houve necessidade de aperto monetário, o que piorou as condições de crédito e do mercado de trabalho, intensificando a desaceleração da indústria e do comércio.

O FGV Ibre acrescenta ainda que a deterioração das condições sociais decorrente da pandemia, em meio à disputa eleitoral, aumentou a pressão política por mais gastos. A forma como esse estímulo fiscal foi costurado acabou tendo impacto negativo sobre a economia por conta das alterações das regras fiscais, o que elevou a incerteza.

O instituto manteve a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2021 em 4,6% e para 2022 em 0,7%.

As poucas boas notícias para o ano que vem virão da agropecuária, cujo PIB deve expandir 5% em 2022, da indústria extrativa, que deve crescer 3,5% impulsionada pela demanda por hidrocarbonetos, e dos serviços, com expansão prevista de 1,4%, afirma Silvia Matos, coordenadora do boletim.

“A indústria deve continuar tendo dificuldades e a alta esperada na taxa de juros até 2022 terá impactos sobre a indústria de transformação que deve se contrair 3,2% ano que vem. No entanto, esperamos que os serviços e o setor agropecuário cresçam acima do PIB agregado”, diz o Boletim. O investimento deve ter contração de 2,4%. “Esses resultados revelam que ainda estamos, e permaneceremos ano que vem, distantes da tendência de crescimento do período pré pandemia.”

Soma-se a isso o ciclo de alta de juros que deve começar a ter mais peso na atividade no ano que vem, o espalhamento da inflação que tornará mais difícil o trabalho da política monetária em 2022, e a virada nos EUA em direção à retirada dos estímulos monetários devido às pressões inflacionárias.

“2022 trará uma coleção de más notícias. Já sabíamos que seria um ano difícil, com eleição. Mas se tornou ainda mais amargo, principalmente no que diz respeito à geração de renda das pessoas”, diz Silvia. “Olhando mais à frente, a inflação de dois dígitos, as condições financeiras mais deterioradas, a incerteza mais elevada e o crédito mais caro contratam um cenário com muito desafios.”

Um termômetro é o arrefecimento das expectativas para os próximos meses. O Índice de Confiança do Consumidor do Ibre caiu 1,4 ponto em novembro e 0,7 ponto na prévia de dezembro. O Índice de Confiança Empresarial caiu 3,3 pontos e 1,6 ponto, respectivamente, nos mesmos períodos. Esse clima indica desaceleração no consumo das famílias e investimentos das empresas, diz o Boletim.

Silvia acrescenta que em 2022 a inflação pode ter algum alívio – indo para um valor mais próximo de 5% -, mas o aperto monetário pesará ao longo de todo o ano. “Esperamos alguma desaceleração [da inflação. O próprio Banco Central está subindo os juros, falando em manter a política monetária apertada. Isso ajuda a segurar expectativas, mas tem impacto para a economia em 2022 e em 2023”, diz.

A inflação de 2021 foi pressionada pela crise hídrica e pelo avanço dos preços do petróleo, que responderam por quase metade da inflação no ano, segundo o Boletim. Mas a alta foi disseminada e resultou em uma indexação – com salários, aluguéis e preços administrados reajustados com base na inflação de 2021 – que dificultará o trabalho do Banco Central.

“A sensação, no geral, será ruim”, diz Silvia. Isso porque 2022 começa com inflação, perspectiva de emprego ruim (com o número de ocupações crescendo em menor ritmo), a sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de que vai subir os juros, e um cenário incerto em relação à pandemia e às eleições, que cria incerteza entre os investidores e pode influenciar a taxa de câmbio.

“Vai depender muito da eleição, dos programas de governo, e se há soluções factíveis capazes de conciliar questões econômicas e sociais. Hoje estamos em um momento em que o governo está sacrificando a economia para viabilizar a agenda social”, afirma a economista. “Começamos 2022 mal e não sabemos como vai acabar. Por ora, não vejo escapatória. Não há política social que compense a contração dos motores da economia na geração de emprego.”

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