CEO do Assaí (ASAI3) diz que venda de remédio no atacarejo é para ter ‘preço justo’

Proposta, que gera críticas de farmácias, está em discussão

O presidente do Assaí (ASAI3), Belmiro Gomes, disse que a medida sugerida pelo varejo alimentar, de venda de medicamentos sem necessidade de receita nas lojas do setor, não é motivada apenas pela inflação alimentar, e a intenção é garantir “preço justo” aos consumidores.

“Assim como farmácias comercializam alimentos no Brasil, o varejo alimentar também poderia vender MIPs com regulação e segurança, como ocorre globalmente”, escreveu ele em sua conta no LinkedIn.

Neste momento, representantes de farmácias e supermercados defendem suas posições, em campos opostos, depois que associações de comércio e atacado terem levado ao governo proposta para essa comercialização, em novembro, num pacote de dez sugestões.

Para isso avançar, teria que avançar com o debate, hoje paralisado, junto à Câmara dos Deputados, e votado um projeto de lei — há 11 projetos sobre o tema na Casa, dizem fontes.

O intuito do varejo alimentar seria ajudar a reduzir inflação — com a venda de uma categoria de margem mais alta, o ganho seria repassado ao preço de produtos alimentares.

Esse aspecto tem sido criticado pelas redes de farmácias, que afirmam que não há como empresas e governo controlarem um real repasse contínuo aos preços, considerando que o mercado de varejo alimentar opera com liberdade, de forma autônoma.

Para Gomes, o Brasil está atrasado nessa discussão. Afirma que em países como Japão, Inglaterra, Suécia, França, Canadá, Alemanha e Austrália, esse modelo é consolidado há anos, sem impacto negativo no consumo ou aumento da automedicação.

“Além disso, essa proposta da Abras – Associação Brasileira de Supermercados não é motivada apenas pela inflação alimentar. A demanda é antiga no setor e válida independentemente do cenário econômico. O objetivo é ampliar a concorrência e reduzir os preços.”

Para Gomes, o varejo e o atacado são capazes de diluir custos e oferecer medicamentos mais acessíveis sem comprometer a segurança ou o controle regulatório.

“Acredito que o(a) consumidor(a) brasileiro(a) tem maturidade para lidar com essa mudança, assim como ocorre com as pessoas nos países onde esse modelo já existe […]. É importante não perder de vista o essencial: facilitar o dia a dia de milhões de brasileiros(as)”, escreveu Gomes.

Dias atrás, o executivo da Raia Drogasil, Eugenio De Zagottis, disse, também no Linkedin, que o problema não é a entrada dos supermercados nesse mercado, mas se as empresas seguirão as mesmas normas rígidas das farmácias, de controle e fiscalização de produtos.

Os supermercados seriam obrigados a ter farmacêuticos na área de venda 24 horas por dia, no caso de lojas que operam nesse período, como as drogarias. E teriam que seguir normas da Anvisa, a agência de segurança sanitária.

Executivos de farmácias ouvidos, ainda criticam o fato de os interlocutores dos supermercados não terem apresentado um plano claro e um comprometimento público em relação a esses controles, dizem fontes.

Na visão de interlocutores dos supermercados, as drogarias agem para proteger a sua reserva de mercado.

Afirmam ainda que as margens das farmácias seriam comprimidas caso o varejo alimentar entrasse nesse mercado, e isso gera a rejeição das drogarias à sugestão.

O Valor apurou que grandes cadeias de drogarias hoje operam com margem bruta em OTC (itens de venda livre) entre 35% e 38%. Em perfumaria, uma das margens menores, está em 20%, mercado com competição mais pulverizada, inclusive junto aos supermercados.

No geral, a margem bruta de drogarias líderes de mercado supera 20% — na Panvel, até setembro, era de quase 30%, e na RD, de cerca de 28% no terceiro trimestre.

No Carrefour (CRFB3), que inclui varejo e atacado, esse índice foi de 22% no varejo no terceiro trimestre e de 15,5% no atacado.

No GPA (PCAR3), dono do Pão de Açúcar, uma das redes do setor mais rentáveis, ficou em 27,7% no terceiro trimestre, bem mais próxima do verificado nas farmácias.

A questão central nessa discussão é como um eventual ganho em rentabilidade, com os supermercados alcançando melhores margens com a comercialização de remédios sem receita, chegaria na ponta ao consumidor. Líderes do setor afirmam que a alta competição nesse segmento, altamente pulverizado no país, levaria a um repasse ao cliente — algo que as drogarias questionam.

Com informações do Valor Econômico

Leia a seguir