Calor extremo impacta produção agrícola e aumenta pressão inflacionária no Brasil

Onda de calor afeta produção agrícola, principalmente frutas e hortaliças, podendo causar aumento de preços e impactar a inflação, segundo pesquisadora do Cepea

A onda de calor que atinge o país, terceira do ano segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), pode afetar ainda mais a inflação de alimentos, principalmente se persistir por muito tempo. A avaliação é de Aniela Carrara, pesquisadora da área de macroeconomia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

A anomalia de temperatura, disse Carrara, pode atingir a produção de diversos alimentos de origem agrícola ao reduzir a produção e colheita dos produtos. “Assim, uma menor oferta no mercado e a demanda mantida gera como resultado aumento de preços, que se acontecer com uma quantidade relevante de produtos, pode impactar o grupo alimentação e bebidas do IPCA, que é um dos mais relevantes de tal indicador.”

As frutas e hortaliças, por exemplo, tendem a sofrer com os impactos do calor, por serem altamente sensíveis a temperaturas elevadas. O resultado no contexto pode ser o de queda de produção, tanto em quantidade quanto em qualidade.

A primeira onda de calor registrada no país aconteceu entre 17 e 23 de janeiro e a segunda, entre 2 e 12 de fevereiro, ambas no Rio Grande do Sul, informou o Inmet.

Quanto à anomalia atual, que teve início nesta segunda-feira (17), atingindo inicialmente áreas de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná, Carrara disse que ainda não é possível quantificar seu impacto inflacionário. Entretanto, o IPCA de janeiro mostrou que tubérculos, raízes e legumes apresentaram uma elevação de 8,19%, com destaque para tomate (+20,47%), cenoura (+36,145) e abobrinha (+43,03%), elevação que, disse, teve o clima como fator contribuinte.

“Por exemplo, o tomate em janeiro foi impactado por chuvas muito intensas. Tais números exemplificam, à luz do que aconteceu em janeiro, o quanto os produtos de origem agrícola são sensíveis a eventos climáticos”.

A configuração da inflação, explicou Carrara, requer aumento contínuo e generalizado de preços, e isso é justamente o que ela disse estar sendo visto recentemente em produtos alimentícios agrícolas. O clima, disse, desempenha papel-chave no processo, “seja com chuvas em excesso ou com calor em excesso, como tem sido agora, para a redução da oferta e consequente elevação de preço ao consumidor”.

Os impactos climáticos, destacou a pesquisadora, acontecem em maior ou menor grau, a depender das particularidades da cadeia produtiva e de comercialização de cada produto. O resultado são percepções de elevação de preço distintas por parte de cada consumidor.

“Ademais, até se materializar o preço que o consumidor encontra quando vai fazer as suas compras, há outros elementos que importam, como o preço do transporte, a distância para os centros produtores e distribuidores, dentre outros, que juntos formam os preços dos alimentos aos consumidores”, concluiu.

*Com informações do Valor Econômico

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