Desaceleração histórica da inflação não reverte cenário negativo para o IPCA, dizem analistas

Desaceleração da inflação causada pelo bônus de Itaipu esconde núcleos pressionados e não anula necessidade de controle dos níveis de emprego e renda

As primeiras impressões com relação à inflação foram positivas. Afinal, o IPCA desacelerou de 0,52% em dezembro para 0,16% em janeiro. Mas, depois de um olhar mais atento, a conclusão é que ainda há muito o que ser feito para que a pressão sobre os preços diminua.

E isso está relacionado ao fato de que a desaceleração histórica em janeiro de 2025 está atrelada a um evento pontual. Por outro lado, há pressão de preços em segmentos importantes da economia.

Economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi diz que, geralmente, o começo do ano é “mais salgado” em termo de preços. Contudo, o bônus de Itaipu, que fez a energia elétrica residencial despencar 14,21% no mês, inverteu a dinâmica. Assim, só esse fator tirou 0,55% do IPCA.

Então, “não fossem os preços administrados (de energia elétrica, principalmente), veríamos uma inflação bem mais elevada”, acrescenta Borsoi.

Nesse sentido, os preços livres continuaram acelerando e registram alta de 5,14% em janeiro para 12 meses, superior ao IPCA do período, que é de 4,56%.

Queda é pontual

Para o economista André Perfeito, o resultado de janeiro não influencia no que virá. Nesse sentido, ele menciona que a eficiência do BC será medida por sua atuação com relação à inflação de serviços, que subiu.

“Segundo a medida de núcleo de serviços subjacentes, este acelerou de 0,67% em dezembro para 0,86% em janeiro”, destaca o economista.

Da mesma forma, Borsoi, da Nova Futura, vê os núcleos de inflação “rodando em níveis elevados”. Nesse sentido, vê uma “piora na qualidade do IPCA” e crê que “não se trata de um alívio nos preços” de forma mais consistente.

Nesse sentido, “essa variação será devolvida em fevereiro”, diz Gabriel Pestana, analista econômico da Genial Investimentos, que prevê alta de 1,3% para o mês.  

Emprego e salários seguem pressionando preços

Do lado de serviços, o economista-chefe da Nova Futura destaca o “mercado de trabalho aquecido e ganhos de salário não compatíveis com a produtividade” como fatores de pressão inflacionária.

O BofA aponta que o “IPCA foi distorcido” pelo bônus de Itaipu e que as medidas subjacentes do índice “ainda mostram aceleração”.

Embora reconheça uma desaceleração na atividade econômica, o banco aponta que ainda “pode demorar um pouco” a tradução dessa desaceleração da economia em menor pressão sobre os preços, dado que o nível de desemprego segue “em níveis muito baixos”.

Itaú: inflação de serviços desacelerou nos últimos três meses

O Itaú indica que os dados do IPCA vieram dentro do projetado, confirmando a expectativa do banco de “alguma desaceleração de serviços subjacentes na margem”.

Isso porque o Itaú abordou a média móvel de três meses para esse indicador, com dados dessazonalizados e anualizados. Assim, dentro desse recorte, os serviços subjacentes desaceleraram para de 8,7% para 7,8%.

Núcleos seguem pressionando a inflação como um todo

Contudo, levando em conta apenas o mês de janeiro, o núcleo médio acelerou ligeiramente para 0,60%. Anteriormente, em dezembro, a alta foi de 0,58%.

Nesse sentido, o Itaú alerta para o núcleo de industriais subjacentes acelerando de 3,5% para 4,4% no período.

Além disso, há um destaque para a alta dos serviços ligados à mão de obra, mais relacionados com o ciclo econômico, que “seguem rodando em patamar elevado, confirmando uma leitura qualitativa ainda ruim”.

Então, na base anual, o núcleo médio acelerou para 4,51%. Em dezembro, estava em 4,32%.

Os serviços principais aceleraram tanto em uma base mensal, de 0,67% para 0,78%, quanto em uma base anual, de 5,8% em relação ao ano anterior para 5,9%. 

Impacto sobre os juros

Na percepção de Borsoi, pelo fato de os núcleos ainda apresentarem um cenário de pressão, “aumentam bastante as chances de o Copom ter que estender o ciclo (de alta dos juros) para além de março, principalmente na reunião de maio”.

Nesse sentido, Perfeito diz que o Copom “manterá o freio de mão puxado da Selic” e avalia que “nada se altera na trajetória dos juros básicos”. O economista prevê mais uma alta de 100 pontos, como já estabelecido desde dezembro, e mais uma, de 75. Assim, a taxa deve chegar a 15%. A projeção é abaixo de outras como do Itaú, que está em 15,75%.

Borsoi diz que “a curva só irá precificar uma taxa Selic acima de 15,50% se ficar claro que a economia não irá desacelerar ao longo deste ano”. Ou seja, ainda há chances de os juros não subirem às máximas apontadas por parte do mercado. Mas, para isso, os núcleos da inflação, especialmente de serviços, precisam desacelerar nos próximos meses. Assim, o entendimento é que será preciso comprometer o nível de emprego, algo bastante delicado para o governo em termos de popularidade.

Algumas boas notícias

A inflação para janeiro geralmente vem acima da de dezembro. Então, o recuo pode transcender a questão energética pontual e trazer algumas boas notícias. Como, por exemplo, grupos como carnes, “com surpresa baixista significativa”, segundo destaque de Gabriel Pestana, da Genial.

Além disso, o analista destaca serviços e manutenção e bens duráveis com um alívio sobre os preços.

Contudo, para que o cenário de fato mude para algo mais positivo, Pestana diz que é preciso observar de dois a três trimestres de desaceleração em núcleos importantes, como a média, serviços subjacentes e industriais subjacentes.

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