Para operadores de NFT, a confusão é parte da graça

Especulação e badalação são parte do apelo para investidores desse mercado
Pontos-chave
  • A improvável parceria entre artistas e nerds tecnológicos para criar NFTs propicia também algo altamente inflamável

É fácil desqualificar o mercado de tokens não fungíveis (ou não conversíveis, conhecidos como NFTs nas iniciais em inglês) como um manancial de trapaceiros e artistas golpistas. A realidade é muito mais exótica e mais louca do que isso.

Depois de passar alguns meses à espreita nos bate-papos do Discord e nos círculos do Twitter onde o pessoal do NFT circula, passei lentamente a apreciar o caos constante, as personalidades descomunais e as comunidades estreitamente entrelaçadas que tornam os NFTs tão diferentes das ações comuns negociadas em bolsa ou mesmo do bitcoin.

Para a maioria das pessoas, o próprio conceito de um NFT – uma obra de arte digital que usa a tecnologia blockchain para comprovar a propriedade – ainda é sentido como impenetrável, e os ares de especulação que o cercam são ainda mais perturbadores. Mas, para operadores de NFTs engajados, muitos dos quais abraçaram o rótulo de “degenerados”, a confusão é simplesmente parte da atratividade.

Como me contou o dono de um Cool Cat, uma coleção de desenhos digitais para imagens de conta de usuários: “É louco como associar uma imagem a um registro no blockchain é capaz de fazer uma ligação no cérebro que até então não existia”.

Cool Cats — Foto: Reprodução

Sim, você pode perder muito dinheiro, bem rápido, ao transacionar essas imagens genéricas, muitas vezes pouco atraentes. Mas observar os dramas diários que os NFTs parecem criar quase vale pagar caro pelo desenho de um animal. É como se o pátio de recreio se tornasse uma grande liga esportiva, com o preço constantemente flutuante de cada coleção fazendo as vezes de placar.

Um colapso de NFTs que ficará na memória ocorreu ainda no mês passado, sob a forma do Pixelmon. Prometendo uma versão cripto do Pokémon, Pixelmon fez sua estreia pública poucos dias após a invasão da Ucrânia pela Rússia, num momento em que as bolsas tradicionais despencavam.

Duas semanas antes, milhares de compradores entusiasmados chegaram a pagar nada menos que 3 ethereums (US$ 10 mil) por ovo de monstro, gerando dezenas de milhões de dólares para os desenvolvedores. Quando saíram do ovo, no entanto, as criaturas toscamente desenhadas e precariamente animadas estavam longe das prévias anteriores do desenvolvedor. “Não acredito que paguei US$ 10 mil por isto” tornou-se um meme.

Pode ser um aspecto revelador sobre os compradores de NFTs o fato de tantos parecerem culpar tanto o Pixelmon como Putin pela queda abrupta das últimas semanas do volume negociado e dos preços. Mas, em vez de protestar e resgatar o dinheiro, muitos investidores em NFTs simplesmente puseram um gif de Michael Jackson comendo pipoca em seu grupo no Discord e curtiram as repercussões de mais um fracasso espetacular.

Um personagem do Pixelmon chamado Kevin – um lagarto verde estrábico que parece um refugo do game Minecraft – tornou-se totêmico do triste acontecimento. O que tinha começado como memes não tardou em se transformar em NFTs negociáveis, e foram lançadas mais de uma dúzia de coleções baseadas em Kevin. O preço de um Punk Kevin, uma variante de cara de cara verde dos bem-sucedidos CryptoPunks, superou, por pouco tempo, os 3 ethereums (mais de US$ 7.500 na época), quase 10 vezes o preço de um Pixelmon após seu colapso no mercado secundário.

Pixelmon e Cool Cats (acima): NFTs que causam barulho nos grupos de discussão — Foto: Reprodução

O desastre do Pixelmon mostra que a moeda principal dos NFTs não é o ethereum, e sim a atenção. Ela alimenta uma luta desesperada por publicidade no superlotado mercado de NFTs, muitas vezes com resultados engraçados. Prova disso é Randi Zuckerberg, empreendedora em NFTs (e irmã de Mark), cujo vídeo em que canta e dança – um “grito de guerra pelas mulheres” dessa nova era da internet – era tão constrangedor que viralizou.

A improvável parceria entre artistas e nerds tecnológicos para criar NFTs propicia também algo altamente inflamável. Um projeto chamado Weather Report foi visto, no passado, como uma das perspectivas mais promissoras no mercado de desenhos para fotos de perfil.

Ele começou a degringolar quando o artista que o inaugurou, Dentin, saiu com o restante da equipe do Weather Report devido a condições de pagamento. Ele se apressou em lançar seu próprio projeto de NFTs, o DentedFeels, com obras semelhantes, atraindo ameaças judiciais. Os aficionados tomaram o partido do artista: o lançamento do Weather Report fracassou, e os NFTs do DentedFeels foram negociados pelo dobro do preço do concorrente. Essa novela se desenrolou publicamente pelo Twitter e nos grupos de bate-papo do Discord, alimentando uma sensação de proximidade e de acessibilidade entre criadores e especuladores.

Alguns artistas de NFTs estão ficando exaustos com esse esporte de encarar o caos como espectador. Outro projeto muito aguardado, o WGMInterfaces, recentemente cancelou sua estreia porque seus criadores ficaram “sobrecarregados e esgotados”. “Nos últimos meses, a especulação e a badalação tiraram mesmo toda a curtição do que vínhamos tentando fazer”, escreveram eles em postagem em um blog.

No caso dos que optaram por persistir firmemente agora que a montanha-russa dos NFTs volta a mergulhar, a especulação e a badalação são exatamente o que os faz continuar.

(Texto por Tim Bradshaw, do Financial Times, com tradução de Rachel Warszawski)

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