Persio Arida e o peso de deixar os bancos públicos quebrarem; ouça o 6º episódio de ‘Plano Real’
Persio Arida e o peso de deixar os bancos públicos quebrarem; ouça o 6º episódio de ‘Plano Real’
Nova edição do podcast traz entrevista com Persio Arida; o ex-presidente do Banco Central durante o governo FHC é um dos autores da 'Proposta Larida', uma das grandes inspirações para o Plano Real ter saído do papel
O economista Persio Arida é uma das figuras mais importantes na concepção do plano que estabilizou a economia brasileira a partir de 1994.
Ele é um dos autores da ‘Proposta Larida’, um estudo realizado em 1984 conjuntamente com André Lara Resende.
Aliás, o nome da proposta é uma junção dos sobrenomes dos autores. O trabalho, publicado 10 anos antes do Plano Real, propunha a criação de uma moeda indexada.
Pois foi a partir do ‘Larida’ que a equipe econômica liderada por Fernando Henrique Cardoso concebeu a URV, a Unidade de Valor Relativo. Um dos pilares do sucesso do plano. Nesse período, Arida era presidente do BNDES.
Persio Arida e os bancos públicos
No entanto, os maiores desafios vieram após o lançamento. Arida era um dos responsáveis pela continuidade do Plano Real, já que ele foi presidir o Banco Central durante o governo FHC.
Logo, foi nesse lugar que ele enfrentou as primeiras turbulências econômicas e políticas que testaram a resistência do real.
Entre os testes mais complicados, estavam os apresentados pela quebra de muitos bancos públicos. Como os gigantes Banespa (de São Paulo) e Banerj (Rio de Janeiro).
Para entender o tamanho da encrenca, olha só esse dado: até a implementação do Plano Real, o Brasil tinha 65 instituições financeiras estaduais, sendo 30 delas bancos.
Hoje em dia, sobraram 5.
Portanto, dá para entender porque a gente falou no peso que Arida carregou.
O economista detalha os momentos no sexto episódio de ‘Plano Real: a moeda que mudou o Brasil’. O podcast é produção original da Inteligência Financeira feita a partir de parceria com o Estúdio Novelo. A série conta com o patrocínio do Itaú BBA.
As crises que abalaram o real
Durante a entrevista, Arida conta também sobre as crises internacionais que complicavam ainda mais o trabalho dele e do restante da equipe econômica.
Na cadeira de presidente do BC, ele teve que suar muito para lidar com os ataques especulativos que aconteciam contra o real durante essas crises.
As turbulências globais faziam com que as nossas reservas em dólares fossem lá para baixo e ameaçavam o câmbio, que era fixo na época.
E as crises foram várias mesmo: México em 95, países asiáticos em 97, Rússia em 98 e por aí vai.
Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, ao lado do presidente Itamar Franco. FHC constantemente fazia a ponte entre a equipe que criou o Plano Real e o Palácio do Planalto. Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo – 20/7/1993
Fernando Henrique Cardoso segura a cartilha da URV. A Unidade Real de Valor foi exaustivamente explicada para a população e dessa estratégia dependia o sucesso inicial do Plano Real. Foto: Wilson Pedrosa/Estadão Conteúdo – 1/3/1994
FHC posa com as cédulas do Plano Real. A logística de distribuição das cédulas envolveu importação de papel moeda, uso de figuras repetidas e até transporte por navio. Foto: Getúlio Gurgel / Acervo Instituto FHC
O Plano Cruzado foi a principal aposta do presidente José Sarney para conter a inflação. O governo pediu apoio da população para fiscalizar os preços, que estavam congelados. A foto é de março de 1986. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo – 3/3/1986
O Plano Cruzado fracassou e o destino de outro plano, o Verão, foi o mesmo. Na imagem, consumidores se deparam com prateleiras vazias em supermercados. Era 1989, quase no fim do governo Sarney. Foto: Norma Albano/Estadão Conteúdo – 31/1/1989
A remarcação de preços era uma constante no Brasil na época da hiperinflação. A famosa máquina retratada na imagem era bastante usada na época. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo – 6/11/1988
A ministra Zélia Cardoso de Mello explica em entrevista coletiva o Plano Collor. O principal ponto do programa foi o que causou mais aflição na população: as poupanças dos brasileiros foram confiscadas. O plano também fracassaria. Foto: Protásio Nene/Estadão Conteúdo – 16/3/1990
Correntistas fazem fila em agência do banco Banespa, em São Paulo, para desbloquear o dinheiro retido desde a implantação do Plano Collor. A imagem é de 1991 e o plano já havia fracassado. Foto: Epitácio Pessoa/Estadão Conteúdo – 15/8/1991
A formação da equipe econômica que formularia o Plano Real continha nomes importantes como o de Pedro Malan, que antes de assumir a presidência do Banco Central era o negociador da dívida externa brasileira com o FMI. Foto: Álvaro Motta/Estadão Conteúdo – 20/11/1994
Os economistas Persio Arida e Gustavo Franco também integravam a equipe que idealizou o plano que mudou o Brasil. O registro fotográfico é de 1995. O Plano Real já havia dado certo e caído no gosto da população. Foto: José Paulo Lacerda/Estadão Conteúdo – 10/03/1995
Membro da Academia Brasileira de Letras e economista, Edmar Bacha foi quem rabiscou o Plano Real em um papelzinho azul no apartamento de Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda. Foto: Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo – 28/8/1995
1994 é o ano zero do Plano Real, mas também está repleto de acontecimentos marcantes. Na foto, o capacete de Ayrton Senna repousa sobre o caixão que abriga o corpo do piloto, morto em um acidente automobilístico durante uma prova de Fórmula 1 na Itália. Foto: Luiz Prado/Estadão Conteúdo – 6/5/1994
Cortejo com o corpo do piloto Ayrton Senna parou as principais ruas de São Paulo. Foto: Milton Michida/Estadão Conteúdo – 4/5/1994
Mas 1994 é também o ano da conquista do tetracampeonato pela seleção brasileira de futebol. A vitória nos Estados Unidos, nos pênaltis, diante da Itália marcou o fim do jejum de títulos que já durava 24 anos. Desde 1970 o Brasil não vencia uma Copa do Mundo. Foto: Gábio M. Salles/Estadão Conteúdo – 17/07/1994
São Paulo também parou para receber os tetracampeões, que desfilaram em carro aberto. Foto: Nelson Almeida/Estadão Conteúdo – 29/07/1994
Para alguns, a consolidação definitiva das conquistas alcançadas com o Real veio apenas com a troca de poder. Fernando Henrique deixou a presidência e Lula assumiu. Ele manteria, em muitos aspectos, a política econômica dos anos de FHC. Dida Sampaio/Estadão Conteúdo – 11/9/2003
A entrevista foi concedida ao Daniel Fernandes, editor da Inteligência Financeira. Bem como ao economista-chefe do Itaú Unibanco Mario Mesquita.
“Historicamente, todos os países com câmbio fixo acabaram tendo que flutuar e o Brasil foi mais um no processo”, conta Arida.
“Então, o Brasil teve uma crise cambial, como falei, em 97, teve 98 e no final não conseguiu mais sustentar”.
Plano Real: os episódios anteriores
A série ‘Plano Real: a moeda que mudou o Brasil’ tem ao todo sete episódios. Seis deles já estão no ar e podem ser acessados a partir do site especial do projeto. Eles também estão disponíveis nas principais plataformas de áudio.
Confira abaixo a lista de episódios disponíveis.
Episódios
Título do episódio
Episódio 1
A concepção
Episódio 2
O Brasil antes do Real
Episódio 3
Um começo de ajustes
Episódio 4
Uma moeda antes da moeda
Episódio 5
Ancorar é preciso
Episódio 6
Estabilização em crise
Assim, a Inteligência Financeira também preparou uma série de reportagens a respeito do Plano Real, que completa 30 anos em 2024. Assim como os episódios em áudio, as principais matérias podem ser acessadas na nossa página especial.
Mas, para ajudar o leitor, selecionamos as principais reportagens abaixo