Jogadores de futebol profissional começam a driblar maus investimentos

Antes de ser campeão da Libertadores pelo Grêmio em 2017, o jogador de futebol Jael Ferreira Vieira, apelidado ‘Jael, o Cruel’, conheceu Bruna Maiele de Oliveira em 2013. Com ela, aprendeu a importância de economizar. Contudo, o mundo dos investimentos era uma novidade para ambos. Assim, o casal não conseguiu fugir de um produto financeiro que assolava (e ainda assola) o mercado: o COE (Certificado de Operações Estruturadas).
Mais da metade das finanças do casal ficou presa em uma carteira repleta de COE, disseram à Inteligência Financeira, logo quando começaram a entrar no mundo das finanças. Presa porque as operações estruturadas são de alto risco, tem prazo longo e o resgate só fica disponível no vencimento.
Agora, o aprendizado deles, e de outros atletas, abriu espaço para um mercado milionário de consultoria de patrimônio. E há lições importantes para os investidores pessoa física.
Aposentadoria é o gol, mas tem uma barreira
Além da paixão pelo futebol, todo brasileiro tem uma preocupação em comum: a aposentadoria.
A diferença é que atletas profissionais – e suas famílias – precisam lidar com a questão mais cedo do que a maioria dos brasileiros.
A busca por liquidez nos investimentos fez o casal Jael e Bruna querer saber mais sobre Selic, CDB e o papel do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) em 2019. Na época, o jogador, que atingiu o ápice de sua carreira no Grêmio, foi para o Japão jogar pelo FC Tokyo.
Com a pandemia e a paralisação dos campeonatos, Jael voltou ao Brasil e começou a vislumbrar a aposentadoria. No entanto, sua carteira de investimentos “tinha um retorno abaixo da poupança” conta o jogador. Cerca de 56% do patrimônio do jogador, administrado por uma assessoria de investimentos, ficou aplicado em um COE.
O COE é um produto financeiro que combina renda fixa e renda variável em uma única aplicação. Assim, proporciona diversificação e acesso a novos mercados, com a vantagem de uma única tributação.
O problema é que o investidor não sabe, de partida, o retorno da aplicação.
Um estudo da FGV mostrou que 9 em cada 10 operações estruturadas por escritórios de investimentos e bancos têm retornos abaixo do prometido na contratação do produto. O estudo, é importante destacar, é de quatro anos atrás.
Jael e Bruna investiram em COE como garantia de um empréstimo, numa operação cruzada. O retorno do COE era abaixo dos juros do empréstimo contratado, aponta Lizandro Loesch, consultor autônomo que atende o casal. “Apenas 7% da carteira era protegida pelo FGC”, diz.
Esposa ganha protagonismo
“Antes, a nossa mentalidade era investir 100% em imóveis: casas, apartamento residenciais, prédios comerciais”, diz ‘Jael. Ele já havia “ganhado muito dinheiro”, inclusive em dólar, quando jogou no Japão e, depois, na Coreia do Sul. Mas o único investimento que tinha era um apartamento no qual havia dado entrada.
“Eu não tinha controle financeiro, gastava muito”, relata o atacante. Até começar um relacionamento com Bruna, que tinha um perfil mais conservador e era organizada.
Quando Jael jogou em Porto Alegre, Bruna escolheu um apartamento de 55 metros quadrados para ambos morarem. Outros colegas de elenco gremistas moravam em mansões, lembra Bruna.
“Não tínhamos funcionários. Isso mesmo com uma situação financeira parecida dentro do futebol”, afirma Bruna.
Bruna é engenheira civil de formação e ex-mestre de obras. Hoje, presta consultoria financeira para sete esposas de jogadores de futebol.
“Acredito que a forma com que eu vivi com o Jael despertou o desejo de ajudar.”
COE, CRI e CRA ‘longos demais’
Outro jogador que passou a prestar mais atenção aos seus próprios investimentos é Herberty Fernandes de Andrade, atacante do Johor Harur Ta’zim, clube da primeira divisão da Malásia.
Entre a rotina de deixar os filhos na escola de manhã e treinar à tarde – quando o calor é mais ameno na região – Herberty não tinha a disciplina de checar o rendimento de suas aplicações. O jogador fala que “a parte de investimentos não era tocada diretamente (pela corretora)”, o que complicou sua vida financeira.
“Os assessores me indicavam COE, previdência, CRI e CRA com prazo de 20 anos. Coisas longas demais”, afirma ele.
O jogador tem 35 anos atualmente e mira sua aposentadoria. Ele conta que “fez uma limpa nos maus investimentos”, mirando a renda passiva.
Mercado de consultoria de atletas
Ao longo de 2024, ex-atletas e jogadores de futebol montaram negócios para aproveitar a falta de entendimento da categoria sobre educação financeira.
Segundo um estudo de pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) que entrevistou 57 ex-jogadores de futebol de alto nível, quase 60% apontaram que a situação econômica piorou depois da aposentadoria.
Sobretudo, 42% precisaram pedir ajuda financeira a familiares após deixarem os gramados.
De olho neste problema, Ronaldo Nazário, o Fenômeno, uniu a R9 Gestão à Galapagos Capital, companhia de investimentos global em 2024 e criou a Galaticos Capital, especializada em gestão patrimonial de atletas.
Viviane Leal, cofundadora ao lado de Ronaldo, conta que a ferramenta mais poderosa para atrair jogadores de futebol ainda é o tradicional boca a boca.
A partir da influência de Ronaldo, a gestora agregou estrelas do futebol. A Galaticos hoje atende atleta do calibre de Gabriel Jesus, atacante do Arsenal, e Tamires Dias, lateral-esquerda do time feminino do Corinthians.
“A maioria dos atletas que chega a nós vêm porque ouvem falar da gestora pelo boca a boca”, disse Viviane à Inteligência Financeira.
Experiência zero com mercado financeiro
A maioria dos atletas que contrata o serviço da Galaticos tem “experiência zero com mercado financeiro”, diz Viviane.
Ao mesmo tempo, os iniciados no mundo dos investimentos trazem carteiras “onde 70% dos produtos não condizem com a realidade deles”.
“Muitos atletas gostam de criptomoedas, por exemplo”, aponta Rodrigo Blanco, sócio da Galapagos. “Nosso papel é medir os riscos e explicar isso aos atletas”, completa.
“Esta semana resolvemos uma situação de um cliente que possuía uma operação estruturada de bolsa. Acontece que ele aceitou uma proposta de renovar a operação, mesmo com prejuízo. O gerente (da instituição financeira) não explicava o porquê do prejuízo, mas estava insistindo para renová-la.”
Rodrigo Blanco, sócio da Galapagos Capital
Atletas com carreira no exterior entram em foco
Enquanto isso, a gestora Somma Investimentos abriu sua área de multifamily office dedicada a atender um tenista famoso.
Atletas no exterior começaram a agregar à base de clientes, diz Rodrigo Scussiato, sócio-diretor da Somma. “Porque o atleta, principalmente o que atua no exterior, tem muita demanda para não só trazer o dinheiro de fora para o Brasil, mas também de como ele pode deixar tudo declarado na Receita Federal”, diz Scussiato
“E é nesse momento que conseguimos sentar com o atleta e tirar dúvidas sobre os riscos”, diz o executivo.
O multifamily office mira na marca de R$ 5 bilhões sob custódia em 5 anos.
“A abertura do mercado não vem porque as assessorias e bancos oferecem maus produtos”, diz Viviane, da Galaticos.
“Muitas vezes essas instituições não tem uma visão ‘360’ do jogador. Eles precisam de atendimento para saber, por exemplo, como planejar viagens, orçamentos e até se vale a pena acertar com um time de outro país ou não pela carga tributária”
Viviane Leal, CEO da Galaticos Capital
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