Taxas altas e risco: vale a pena entrar no mercado secundário?

Títulos têm boas taxas, mas o investidor precisa entender os riscos e ficar até o vencimento do papel

Ao entrar no mercado secundário de renda fixa, investidores costumam encontrar títulos sendo negociados a taxas mais altas do que as ofertadas no mercado primário. Esse diferencial pode representar uma oportunidade para quem busca retornos melhores, mas também esconde armadilhas que exigem atenção.  

A liquidez dos ativos, o risco de crédito e a marcação a mercado são alguns dos fatores que podem impactar a rentabilidade final. Abaixo, especialistas explicam por que as taxas são tão atrativas e o que avaliar antes de investir. 

Por que as taxas do mercado secundário podem ser mais altas? 

Diferente do mercado primário, onde os títulos são emitidos diretamente pelas empresas ou pelo governo, no mercado secundário os preços são definidos pela oferta e demanda. Isso faz com que os yields (retornos) variem de acordo com as condições de mercado, podendo ficar mais altos ou baixos do que os de novas emissões. 

Segundo Nicolas Gass, sócio da GT Capital, as taxas mais elevadas observadas nos últimos anos são resultado do aumento dos juros e das incertezas no cenário econômico. 

“Quando o risco no mercado aumenta, os investidores exigem retornos maiores nos ativos de renda fixa, elevando as taxas no mercado secundário. Mas essa dinâmica muda conforme a perspectiva de juros. Em um ciclo de queda, os ativos de risco se valorizam e as taxas tendem a diminuir.” 

Já Matheus Lima, sócio da casa de análise Top Gain, destaca que a liquidez e a percepção de risco do emissor também influenciam as taxas. “A demanda por um título específico pode aumentar seu preço e reduzir o yield, enquanto uma baixa demanda pode fazer o preço cair e o yield aumentar”.

Quais são as taxas médias do mercado secundário? 

As taxas variam conforme o perfil do título e do emissor. De acordo com Gass e Lima, alguns dos retornos médios praticados atualmente são: 

  • Pós-fixados: 105% a 110% do CDI (rendimento líquido) 
  • Prefixado: 14% a 15% ao ano (isentos para títulos de crédito privado) 
  • IPCA+: IPCA + 7% a 8,5% ao ano 

Esses valores podem oscilar conforme a oferta de títulos no mercado e as projeções de juros. Um prefixado de 14%, por exemplo, reflete a expectativa futura para a Selic. Já os títulos atrelados ao IPCA oferecem retornos reais elevados, especialmente em períodos de inflação alta. 

“Hoje encontramos ativos IPCA+7%, isentos, e prefixados a 14%, também isentos. Se projetarmos uma inflação de 6%, isso daria um retorno equivalente a 13% ao ano com a inflação. Os prefixados, com taxas voltadas para a previsão do futuro, podem chegar a 15,5% ou 16% bruto”, explica Gass. 

Vale a pena entrar no mercado secundário?  

Embora as taxas possam ser sedutoras, os especialistas alertam para os riscos desse ambiente de negociações. Portanto, a decisão sobre entrar no mercado secundário varia de acordo com os objetivos e estratégia de investimento. 

Nem todos os títulos negociados no mercado secundário, por exemplo, têm demanda constante. Assim, títulos de emissores menos conhecidos podem ter poucas negociações, dificultando a revenda. 

“Empresas que não costumam emitir frequentemente tendem a ter liquidez menor. Quem compra um título com taxa muito elevada pode enfrentar dificuldades para vendê-lo no futuro sem um grande desconto”, destaca Gass. 

Lima complementa. “Títulos com yields muito altos podem indicar baixa liquidez. Isso significa que, se precisar vender antes do vencimento, o investidor pode ter que aceitar um preço abaixo do esperado.” 

Além disso, taxas muito acima da média podem ser um sinal de maior risco de calote por parte do emissor. Por fim, segundo o especialista, é preciso considerar o impacto da inflação, que pode corroer o retorno real, e cláusulas contratuais desvavoráveis, como recompra antecipada do emissor.

“Empresas menores ou de setores mais nichados precisam pagar prêmios maiores para atrair investidores. O problema é que isso pode vir acompanhado de um risco de crédito mais alto” alerta Gass. Para evitar surpresas, o investidor deve analisar a classificação de risco do emissor e sua capacidade financeira. 

De olho na marcação a mercado 

Títulos de renda fixa são precificados diariamente e seu valor pode oscilar conforme as taxas de juros mudam. Isso significa que um título comprado hoje com taxa elevada pode perder valor se os juros caírem, afetando quem precisa vender antes do vencimento. 

“Se a Selic cair e você precisar sair do investimento antes do prazo, pode ter um prejuízo na venda do título. Esse efeito é ainda maior nos prefixados e atrelados ao IPCA” explica Lima. 

O que considerar antes de investir 

O mercado secundário pode oferecer taxas atrativas, mas exige cautela. Para aproveitar as oportunidades sem cair em armadilhas, os especialistas recomendam comparar taxas com o mercado primário e avaliar se o prêmio oferecido compensa os riscos. 

Além disso, verificar a liquidez do título e entender se há demanda no mercado para uma revenda futura. Por fim, analisar o risco do emissor, priorizando empresas bem avaliadas e com boa saúde financeira, e ter um horizonte de longo prazo, especialmente para títulos prefixados e atrelados à inflação, que são mais sensíveis às oscilações da Selic. 

“O mercado secundário é excelente para encontrar boas taxas, mas o investidor precisa entender os riscos e estar preparado para carregar o título até o vencimento, se necessário”, finaliza Gass. 

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