Venda de íris: contamos tudo sobre o projeto que paga para ter acesso aos seus dados

- Interessados participam de um escaneamento ocular em centros de verificação e recebem cerca de R$ 600 em criptomoedas WorldCoin.
- Os organizadores afirmam que as imagens não são armazenadas online e que os dados são apagados após o processamento.
- Especialistas alertam sobre os riscos de compartilhar dados biométricos sensíveis, citando o histórico controverso do criador do projeto e a ausência de regulamentação clara no Brasil.
- A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) está investigando o projeto e alerta para os riscos envolvidos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) destaca o potencial da biometria por íris, mas enfatiza a necessidade de desafios éticos e práticos.
Aos 19 anos, Leonardo Floriano nunca imaginou que participaria de um projeto em que trocaria seus dados por criptomoedas, por meio do que chamam de “venda de íris”. Trabalhando como jovem aprendiz na área de produção audiovisual, ele foi incentivado pelas irmãs, que passaram pelo mesmo processo alguns dias antes.
Parece ficção científica ou um episódio da série Black Mirror, mas é vida real. Tudo começou quando as redes sociais se tornaram palco de uma nova e controversa onda: vídeos mostrando pessoas vendendo imagens de suas íris em troca de criptomoedas.
A prática, promovida pelo projeto World, criado por Sam Altman, CEO da OpenAI, que é a dona do ChatGPT, tem gerado tanto curiosidade quanto desconfiança entre os brasileiros. No TikTok e no Instagram, influenciadores exibem o processo de escaneamento ocular realizado em centros de verificação, seguido pela recompensa.
Quanto pagam pela íris?
O pagamento para quem aceita a venda de íris é em torno de 48 unidades da criptomoeda WorldCoin – cerca de R$ 600 na cotação atual. Leonardo conta que embora no início tenha ficado receoso, a segurança e a explicação detalhada oferecida durante o processo fizeram com que ele se sentisse mais confortável.
“Descobri tudo no estande onde a negociação é feita. Assisti a um vídeo informativo sobre como funciona. Foi bem rápido. Depois de ver o conteúdo, nós fazemos o escaneamento da íris, tiramos uma selfie e seguimos para as instruções do pagamento”, explica.
O valor vai para uma carteira digital, e parte dele pode ser retirado depois de 24 horas. “Eu saquei apenas uma parte, porque acredito que a criptomoeda pode valorizar mais. Pretendo investir o dinheiro nos meus estudos, já que planejo entrar em uma universidade pública”, conta Leonardo.
Embora o processo pareça seguro, o jovem não deixou de expressar uma preocupação em relação aos dados. “Eu fiquei com medo do que podem fazer com meus dados. No começo não quis, achei que era um daqueles golpes, mas pela insistência das minhas irmãs, eu aceitei. E a coisa parece ser segura.”
A viralização e o debate nas redes
A popularização do projeto nas redes sociais está longe de ser consensual. Muitos internautas enxergam a proposta como uma maneira fácil de ganhar dinheiro, enquanto outros se preocupam com os possíveis riscos à privacidade e à segurança dos dados.
Atualmente, de acordo com a Tools for Humanity, empresa por trás das câmeras que leem a íris dos olhos das pessoas em troca de criptomoedas, mais de 400 mil brasileiros escanearam suas íris, entre meados de novembro e janeiro. Ou seja: em apenas dois meses, quase meio milhão de pessoas toparam vender a íris.
A crescente adesão à prática no Brasil acontece em um contexto global de desconfiança. Em agosto de 2023, o Quênia foi o primeiro país a suspender a operação da World. Em 2024, o projeto foi suspenso na Espanha, pela Agência Espanhola de Proteção de Dados (AEPD), que determinou a exclusão dos dados de íris coletados após considerar que o modelo violava regulamentações da União Europeia.
Enquanto isso, no mesmo ano, a Coreia do Sul também começou a investigar a iniciativa, mas permitiu sua retomada dois meses depois. Já na Argentina, a World foi multada em 194 milhões de pesos por “práticas abusivas”.
A proposta: diferenciar humanos de robôs
Em entrevista à Inteligência Financeira, Rodrigo Tozzi, chefe de operações no Brasil da Tools for Humanity, afirmou que a iniciativa surgiu como resposta a um problema crescente na era da inteligência artificial: como diferenciar humanos de bots.
“Hoje, mais de 50% do tráfego da internet já é feito por robôs. Com o avanço da inteligência artificial, eles vão começar a se comportar cada vez mais como humanos. E aí fica o grande dilema: como diferenciar humanos de robôs nessa nova era? Essa é a questão que o protocolo World tenta responder.”
Ele explicou que o processo começa nos centros de verificação, onde uma câmera especial chamada Orb realiza o escaneamento dos olhos do participante.

“A Orb captura uma imagem de altíssima resolução da íris, valida que a pessoa é um ser humano único e, então, envia um código criptografado diretamente para o telefone do usuário. As imagens nunca são armazenadas na internet. Nós apagamos os dados permanentemente do dispositivo após o processamento”, explica Tozzi.
Especialistas alertam para riscos da venda de íris
Embora a proposta da World seja aparentemente inovadora, especialistas têm levantado preocupações importantes. Fernando Osório, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, destaca os riscos associados ao uso de dados biométricos sensíveis.
“Estamos falando de dados extremamente sensíveis, que, se vazados ou mal utilizados, podem ter consequências graves. Eu não forneceria minha face, digital ou íris para nenhuma empresa, principalmente uma que está pagando por isso. É um comércio arriscado.”
Osório também chama atenção para o histórico controverso de Sam Altman, criador da World e conhecido pelo papel de liderança na OpenAI. “Altman tem um histórico de uso de dados não autorizados, como vimos no treinamento inicial do ChatGPT. É preciso cautela ao confiar em iniciativas desse porte, especialmente quando envolvem dados tão críticos.”
Vender íris no Brasil é ilegal?
A coleta e o uso de dados biométricos ainda carecem de regulamentação clara no Brasil. Portanto, a venda de íris não é ilegal neste momento. Neste sentido, o professor Osório alerta que o país não está preparado para lidar com os desafios tecnológicos e jurídicos que projetos desse tipo apresentam.
“A tecnologia muitas vezes atropela o sistema judicial brasileiro, que é lento. Precisamos de leis mais robustas e atualizadas para proteger os cidadãos contra possíveis abusos. O histórico de vazamento de dados no Brasil, inclusive em instituições governamentais, já deveria ser motivo de preocupação.”
Avanços e perspectivas da biometria por íris no Brasil
Para Alessandro Augusto Nunes Campos, coordenador-geral de Tecnologia em Semicondutores do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o projeto World apresenta tanto oportunidades tecnológicas quanto desafios éticos e práticos.
Ele explica que o MCTI lidera o Plano Nacional de Inteligência Artificial (PBIA), que busca fomentar o desenvolvimento tecnológico e garantir que inovações como a biometria por íris sejam implementadas com responsabilidade no país.
No campo técnico, Alessandro destaca o potencial revolucionário da biometria por íris. “A íris é altamente única, até mesmo entre gêmeos idênticos, o que a torna uma das características biométricas mais seguras para identificação pessoal”, afirma.
Ele também elogia a precisão dos sistemas modernos, que alcançam baixíssimas taxas de erro, além da possibilidade de criar uma identidade digital global com privacidade protegida por meio de criptografia. “Essa abordagem de transformar a íris em um hash único é um avanço significativo que pode inspirar novos padrões de segurança”, observa.
Governo proíbe a venda de íris no país
Por outro lado, Alessandro aponta para desafios importantes na implementação dessa tecnologia. “Manter a precisão dos dispositivos de escaneamento em larga escala, especialmente em ambientes diversos, é um desafio significativo. Além disso, a centralização de dados biométricos pode se tornar um alvo atrativo para ciberataques, e qualquer vulnerabilidade pode comprometer informações sensíveis.”
Ele também chama atenção para questões de acessibilidade, enfatizando que populações de baixa renda ou em áreas remotas podem enfrentar dificuldades para acessar esses sistemas, o que pode agravar a exclusão digital.
No aspecto ético, o coordenador reforça a necessidade de consentimento informado. “As pessoas precisam entender como seus dados serão coletados, armazenados e utilizados. Sem informações claras, os indivíduos podem se sentir pressionados a fornecer suas informações sem compreender as implicações.”
Sobre a atuação do governo, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) anunciou a ordem de suspensão da coleta de íris no Brasil no dia 24 de janeiro. Porém, a World afirmou que “segue operando legalmente enquanto trabalha em parceria com a ANPD para endereçar os seus pontos”. Os pagamentos e o funcionamento dos estandes não foram interrompidos.
Na avaliação da ANDP, a oferta de criptomoedas contraria a Lei Geral de Proteção de Dados, que estabelece que “o consentimento para o tratamento de dados pessoais sensíveis, como é o caso de dados biométricos, precisa ser livre, informado, inequívoco e fornecido de maneira específica e destacada, para finalidades específicas”.
Um olhar sobre o público brasileiro
A Inteligência Financeira visitou o estande da World no bairro da Lapa, em São Paulo. É evidente o grande interesse dos brasileiros pelo projeto. Em uma tarde quente de sexta-feira, o local estava movimentado, com filas de participantes que haviam agendado horários para o escaneamento de suas íris.
Porém, ao conversar com algumas dessas pessoas, um ponto chamou atenção: a maioria sabia pouco sobre como o projeto funciona ou os motivos por trás da coleta de seus dados. O foco principal parecia estar no dinheiro recebido — um valor que muitos já planejavam usar para pagar contas ou guardar, esperando uma possível valorização no futuro.
Embora o processo inclua um vídeo explicativo sobre a proposta e os cuidados com segurança, a compreensão dos participantes sobre questões mais complexas, como a finalidade exata dos dados ou seu armazenamento, ainda parece limitada.
Enquanto aguardavam na fila para vender suas informações, ninguém abordado pela Inteligência Financeira aceitou dar entrevista, mencionando receio de se expor.
O futuro do projeto
Segundo Rodrigo Tozzi, da Tools for Humanity, a operação oficial no Brasil começou em novembro de 2024, após um período de testes em mercados globais. Atualmente, o projeto conta com 38 centros de verificação em São Paulo.
“O conceito é criar uma rede única de humanos e desenvolver ferramentas para que todos possam aproveitar melhor a era da inteligência artificial”, explica.
Tudo indica que a discussão sobre o assunto não deve acabar tão cedo. Enquanto alguns veem no projeto uma oportunidade, outros preferem manter distância, temendo os desdobramentos de ceder suas informações em troca de dinheiro.
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