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Eleições 2026 já mexem com ações, dólar e renda fixa; é seguro operar com base em política?

O mercado financeiro é conhecido por antecipar movimentos para maximizar lucros e não agiu diferente olhando para as eleições de 2026. A queda de popularidade do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mexeu com mercados na última sexta-feira (19). Pesquisa Datafolha mostrou a pior aprovação do presidente em seus três mandatos. O Ibovespa registrou avanço de 2,76%, terceira maior alta do ano. O dólar recuou 1,26%.
No mercado financeiro local, uma possível antecipação do pleito de 2026 trouxe alívio na cotação do dólar. Segundo gestores, a queda de popularidade de Lula traz perspectiva mais positiva para a economia do País à frente. O que mais faz preço nos ativos é a chance de o petista não lançar sua candidatura à reeleição. A consultoria Eurasia, no entanto, considera “exagerado” enxergar 2026 como um ano eleitoral de mudanças.
Mas e eu com isso? |
O noticiário político robusto de fevereiro pode afetar a vida do investidor pessoa física. Via de regra, disputas políticas trazem volatilidade para o mercado de ações. E se você investe nesse segmento, pode ser afetado também. Mas essa instabilidade pode alterar o movimento das curvas de juros, afetando aí outras classes de ativos. O vasto mundo dos investimentos não deve ser olhado com lupa. Ou seja, a dica é prestar atenção no cenário mais amplo. Isso significa que o fiscal ainda é um problema, o ritmo de aumento da Selic é algo para estar atento e, por fim, as ações de Donald Trump nos EUA podem afetar mais detidamente o País. De certo, mesmo, só que o ano que acabou de começar promete emoção. E 2026 ainda mais. |
Eleições de 2026 ativam modo ‘risco livre’ sobre dólar e Ibovespa
Para gestores do mercado financeiro, a perda de popularidade de Lula reflete na alta recente do Ibovespa. Seja Jair Bolsonaro ou outra alternativa do campo político mais à direita a concorrer nas eleições de 2026, a avaliação de fontes ouvidas pela reportagem da Inteligência Financeira é a de que a possibilidade de Lula desistir é responsável pelas recentes altas da bolsa de valores.
Mas a denúncia do ex-presidente Jair Bolsonaro feita pela Procuradoria-Geral da República sob a acusação de tentativa de golpe de Estado “não faz preço na bolsa hoje”, disse um gestor à Inteligência Financeira.
A queda de popularidade de Lula “tira pressão e traz alguma estabilidade” para a bolsa de valores e para o dólar. Em um cenário onde Lula não concorre em 2026, a fonte afirma que o mercado precifica uma eleição “sem extremos”, o que descomprime o risco fiscal, por exemplo.

Outra fonte ouvida sob anonimado concorda. “Não acho que a queda tem a ver com a denúncia contra o Bolsonaro. Poderia ser até bom, porque o candidato que o Lula tem a maior chance de vencer em 2026 é justamente o Bolsonaro”, diz.
Cenário contribui para dólar mais baixo
No dólar, a queda de popularidade de Lula fez com que o real se valorizasse contra a moeda americana, aponta Gabriel Gianecchini, gestor da Gauss Capital.
A volatilidade da moeda, afinal, começou após a decepção do mercado com o pacote de contenção de despesas anunciado em novembro pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A descendência do dólar, no entanto, não tem a ver apenas com uma suposta antecipação do jogo político para 2026. O movimento tem a ver com o cenário macroeconômico, e com os primeiros passos dados por Donald Trump na Casa Branca. Assim, o Itaú Unibanco afirmou recentemente que a queda da moeda norte-americana é de curto prazo. E não deve prosseguir.
A crise do PIX e o exagero do mercado financeiro
A crise do Pix, em que o governo admitiu falha na comunicação institucional a fim de combater a falsa notícia de taxação do meio de pagamento pela Receita Federal, agravou o estresse, indica Gianecchinni.
Mas ele afirma que “o mercado local exagerou no pessimismo”. A queda de popularidade de Lula e a possibilidade de o petista não concorrer foi uma espécie de alívio para a taxa de câmbio. O dólar, contudo, já vinha caindo no ano.
“Obviamente, a queda de popularidade já impacta o dólar e reflete na parte de risco local”, comenta o gestor. “Se ele não concorrer, o movimento de queda do dólar seria mais agravado. Não tem ninguém do PT que substitua ele hoje”, diz.
Tarcísio no horizonte da Faria Lima
Por outro lado, o aumento das chances de Tarcísio de Freitas (Republicanos) se candidatar traz algum bom humor para parte dos investidores. Visto como herdeiro dos votos de Bolsonaro, mas moderação política mais acentuada, o atual governador de São Paulo é bem recebido pela Faria Lima.
“Uma parte do mercado está querendo antecipar as eleições, prevendo já uma possível troca de governo”, diz Christopher Galvão, analista da Nord Research. E essa parte tem feito barulho. O salto do Ibovespa para perto de 130 mil com a queda de popularidade de Lula e a esperança do mercado de que Tarcísio pode ser candidato demonstrou isso.

“Contudo, há grande parte dos investidores que ainda está bem cauteloso, até pela distância das eleições. Além de saber quem de fato vai se candidatar, falta entender a abordagem em relação às contas públicas”, pondera Galvão.
Se Tarcísio confirmar a candidatura a perspectiva é de uma “melhora na curva de juros”, ainda que pontual. A projeção é de Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain.
Estatais descontadas antes das eleições 2026 chamam atenção
O Bradesco BBI afirmou em relatório que houve aumento de apetite do investidor estrangeiro por ações de empresas estatais na bolsa. Entre os exemplos, o banco cita Petrobras, Vale e Banco do Brasil.
Com indefinição sobre o quadro político das eleições de 2026, o “investidor se atrai por mercados emergentes com maior peso de companhias ligadas ao governo e seus descontos”, diz o banco.
Nesse sentido, o Brasil toma a dianteira na corrida com China, México e outros pares emergentes. No MSCI EM, um dos fundos de índices (ETF) mais famosos para investir em economias em desenvolvimento, 10 companhias brasileiras listadas tem participação do governo federal, enquanto outras 16 estão ligadas a governos estaduais.
No ETF da BlackRock, 37% das estatais de todos os emergentes listados em bolsa são brasileiras. Segundo o Bradesco BBI, os papéis dessas empresas implicam desconto de 22% sobre o MSCI Brasil, ETF das ações de maior peso no Ibovespa.
“Investidores estão praticamente focados em política e começaram a separar o setor público do privado, antes das eleições de 2026”, disse o Bradesco BBI.
“As estatais brasileiras negociam hoje sobre um desconto médio de 48% sobre o valor de mercado em relação a pares de outros mercados emergentes.”
Bradesco BBI em relatório
O BBI diz que o teste do mercado brasileiro virá da reação política “a desaceleração da economia no segundo trimestre”. A resposta ortodoxa abre oportunidade para cortes da Selic em 2025, avalia o banco.
Eurasia diz que Lula ainda tem chance de reeleição
A consultoria política Eurasia diz que não prevê uma eleição presidencial em 2026 sem influência de Lula ou Bolsonaro. Mesmo após a queda de popularidade do petista e a acusação formal da PGR contra o ex-presidente.
Ainda que passem por dificuldades próprias, deverão ser os candidatos da esquerda e da direita em 2026, avalia Arthur Scotti, analista da Eurasia Brasil. “As previsões de que o Brasil está caminhando para uma eleição de mudança são exageradas.”
Mesmo com o desgaste de imagem a partir da alta no preço dos alimentos, Lula ainda está forte na disputa, diz Scotti.
Bolsonaro deve se limitar a manter sua candidatura viva. Mas pode enfrentar a prisão ainda neste primeiro semestre, argumenta Scotti. “Nesse sentido, manter a candidatura viva até o prazo final – como fez Lula em 2018 – é politicamente útil, mesmo que ele esteja inelegível.”
“Qualquer nome indicado por Bolsonaro tem boas chances de representar a oposição em 2026”, completa o especialista. O herdeiro mais claro da influência de Bolsonaro no momento é o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho mais novo do ex-presidente. E não Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e ex-ministro de Bolsonaro.
‘É cedo demais para operar eleição’, diz gestor
Por fim, há quem diga que é “cedo demais” para especular no mercado com base em palpites sobre as eleições de 2026. Na avaliação de Gilberto Kfouri, head de renda fixa e multimercados da BNP Paribas Asset, não é válido embutir nas negociações uma possível mudança de governo.
“A gente acha que ainda é cedo para fazer trades em eleição”, afirma Kfouri. “Ainda é muito cedo para antecipar mudanças de governo. Isso não faz mudar as tendências macroeconômicas e um ativo ou outro não vai continuar valorizando só devido a pesquisas”, acrescenta
“Tem que ter uma certa cautela e lembrar que o governo ainda tem a caneta”, conclui o gestor.
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