XP: Renda fixa segue como destaque em 2025, mesmo com desconforto da marcação a mercado
“É impressionante que desde a implementação da marcação a mercado pelas instituições financeiras nos aplicativos, nos portais das instituições, em janeiro de 2023, de lá para cá os títulos [de dívida], praticamente a maior parte do tempo, eles só se desvalorizaram”, constata Rodrigo Sgavioli, chefe de alocação da XP, ao se referir à atualização dos preços dos ativos a valor de mercado, contabilizando as variações diárias, conforme regra da autorregulação da Anbima que começou a valer dois anos atrás. “Tem um efeito no curto prazo que talvez ainda seja [sentido] neste momento, de um certo incômodo por perceber que de fato esses títulos não necessariamente só se valorizam, mas a gente acredita muito no poder educativo disso ao longo do tempo.”
Apesar desse tal incômodo, a renda fixa deve seguir dominando a atenção do investidor brasileiro em 2025, inclusive para as carteiras mais sofisticadas. E o crédito privado terá o seu lugar, conforme relatório assinado por Sgavioli junto com Camilla Dole, chefe de renda fixa da plataforma. Conforme o texto, distribuído há pouco aos clientes, num ciclo de alta de juros, o ideal é privilegiar prazos mais curtos, de olho no “carrego” (o retorno com juros) dos papéis mais do que em ganhos de capital (a venda antecipada no secundário para embolsar lucros), alertam.
No mapa de alocação mais recente da XP, a carteira conservadora tem 87,5% em renda fixa local, sendo 70% em pós-fixados e 17,5% em indexados à inflação. No perfil moderado, a indicação é ter 67,5%, e, naquele mais tolerante a risco, a parcela chega a 50%, com 15% em pós-fixados, 32,5% em títulos atrelados à inflação e 2,5% em prefixados.
“Com a Selic em alta e uma dinâmica quase contínua de elevações nas curvas de juros futuros, tanto nominal quanto real, os ativos de renda fixa brasileiros começaram a apresentar retornos esperados cada vez maiores”, escrevem os especialistas. “Se ajustados aos seus riscos medidos pela volatilidade, por exemplo, esses fatores tornaram uma maior exposição à renda fixa cada vez mais vantajosa para os portfólios.”
O time de economia da XP espera que, no atual ciclo de aperto monetário, a taxa básica da economia suba dos 13,25% ao ano atuais para até 15,50% no seu pico, permanecendo nesse nível até o primeiro semestre de 2026.
“Em um cenário de juros altos por mais tempo e pressões inflacionárias ainda existentes, os portfólios tendem a ter um equilíbrio distinto do que teriam em um período de juros e inflação mais baixos”, continuam os especialistas da XP. Nessa linha, os investidores devem buscar maior otimização dos retornos de suas carteiras por meio de estratégias focadas em carrego, com rendimentos mais previsíveis, em vez de perseguirem maximização de resultados via ganho de capital, “que tende a ser mais volátil e com rendimentos mais incertos”.
A recomendação é privilegiar uma “duration” mais curta. Este termo, muito usado no mercado de renda fixa, refere-se à sensibilidade do preço de um título a variações nas taxas de juros negociadas no mercado. Reflete o prazo médio ponderado até o recebimento dos fluxos de caixa. Quanto maior a duration, maior a volatilidade dos preços na marcação a mercado antes do vencimento.
“A redução da duration de um portfólio é, em nossa visão, uma estratégia eficaz para mitigar riscos, uma vez que, tudo mais constante, diminui sua exposição às flutuações das taxas de juros”, afirma a análise da XP. Essa abordagem é especialmente importante em ambientes de incerteza econômica, em que as taxas de juros podem variar abruptamente.
No ano passado, só os títulos atrelados ao CDI se salvaram da marcação negativa dos ativos. O IDkA IPCA 5, índice da Anbima de títulos indexados à inflação com duração constante e prazo de até cinco anos, caiu 1,91%, enquanto o com vencimento em dez anos recuou 9,31%. Nos prefixados de até dois anos, o retorno foi de 0,01%, e no IDkA pré de até cinco anos o recuo foi de 12,34%.
Apesar do desconforto de ver retornos baixos e até negativos na renda fixa, evitar papéis com maior risco de mercado seria renunciar a oportunidades em papéis com taxa de juro real de quase 7,5%, nível que ocorreu apenas em 2% dos dias observados desde abril de 2007, destaca o relatório da XP.
“Muitos investidores estão não só aprendendo a conviver com a marcação a mercado, como também entendem os efeitos disso, inclusive o quanto, no momento contrário, eventualmente de um fechamento de curva, eles vão poder se beneficiar enxergando essas rentabilidades positivas”, afirma Sgavioli. “A verdade é que isso é uma transparência adicional sobre a dinâmica dos mercados.” Para quem carrega os títulos até o vencimento, a XP dá a alternativa para o investidor enxergar a marcação na curva, que acrua os juros no tempo.
Nesse contexto, o crédito privado é visto como uma alternativa para aumentar a rentabilidade da carteira em troca de um adicional acima dos títulos do Tesouro de referência.
No início de fevereiro de 2025, os spreads dos títulos que compõem o Idex, índice de crédito privado criado pela JGP, estavam em 2,12%, na média, para debêntures indexadas ao CDI, e 40,87 pontos-base no caso das atreladas ao IPCA.
Este é um momento do ciclo econômico em que pode haver, contudo, uma maior dispersão de remuneração entre as emissões de diferentes empresas, a depender do nível de risco associado às suas métricas de crédito, alerta a XP. Segundo aponta a equipe de renda fixa, empresas de utilidades públicas, como energia e saneamento, apresentam, normalmente, spreads menores, em linha com sua previsibilidade de resultados, com reajuste anuais das receitas pela inflação. Já segmentos mais dependentes de ciclos econômicos ou com maior nível de endividamento, como educação e consumo, oferecem retornos e riscos maiores do que a média.
“Acreditamos que atualmente seja necessário maior escrutínio na escolha dos ativos. Afinal, uma política monetária contracionista por mais tempo implica desaceleração da atividade econômica e encarecimento das dívidas das companhias, cujos juros passam a consumir porção maior de sua geração de caixa”, avalia o time de Dole. “Sugerimos atenção às emissões privadas de empresas excessivamente alavancadas, pertencentes a setores cíclicos e com duration muito longa.”
A recomendação é uma exposição máxima de 5% em um único emissor e de 20% em crédito privado. Este é um momento que a maior concentração deve estar em pós-fixados e em títulos atrelados à inflação, apontam os analistas da XP.
*Com informações do Valor Econômico
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