Mercado projeta início dos cortes na Selic em setembro

Sinais preliminares de alívio na inflação e uma apreciação do câmbio têm promovido no mercado uma antecipação nas projeções para o início do ciclo de flexibilização monetária. Nas últimas semanas, ganhou força a parcela dos agentes cuja expectativa é de cortes na Selic com início em agosto ou setembro. O fôlego extra da atividade e a contínua desancoragem das expectativas de inflação, contudo, mantêm um viés cauteloso em parte dos economistas. O ponto de consenso está no curto prazo, na aposta de que a taxa seguirá em 13,75% na decisão de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Em levantamento conduzido pelo Valor com 112 instituições financeiras e consultorias, apenas dois bancos – Bank of America e BRP – esperam que o Copom já reduza agora o juro básico. Já em relação ao fim do ano, a mediana das projeções indica a taxa em 12,5%.

O chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do BofA, David Beker, diz ver riscos “significativos” de o Copom postergar o ciclo de cortes nos juros. Ele, porém, vê espaço para uma redução já agora da Selic diante da estabilidade das expectativas de inflação; do aperto das condições de crédito; e do arrefecimento da inflação. “A mensagem deve ser mais positiva”, enfatiza em nota.
As atenções dos agentes devem se voltar à comunicação do Copom. Na reunião de março, houve alguma surpresa entre investidores com o tom conservador utilizado pelo colegiado. Em relação à decisão de amanhã, a perspectiva de participantes do mercado é de poucas alterações no texto e de manutenção da preocupação com as expectativas de inflação.
“O Copom deve reforçar a mensagem que já estava no comunicado anterior e nas comunicações oficiais do BC de que é preciso perseverar no processo de desinflação até que haja uma convergência da inflação para as metas no horizonte relevante”, diz o superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, Fernando Gonçalves. “Não há espaço para grandes mudanças. É possível ver alguma variação de risco que envolva a questão fiscal e o novo arcabouço fiscal, mas provavelmente no sentido de que a proposta limita incertezas, mas não na direção de mudar a postura da política monetária.”
Avaliação semelhante é feita pela economista-chefe da Kinea Investimentos, Daniela Lima, para quem a comunicação dura usada pelo Copom recentemente será mantida, já que não houve mudanças relevantes que justifiquem ajustes no tom. “Deve ser um comunicado duro, ainda mostrando o BC preocupado com as expectativas acima da meta”, afirma. No Focus, as expectativas de inflação de longo prazo – para 2025 e 2026 – se estabilizaram em 4%.
A economista da Kinea aponta que a queda dos preços das commodities em reais, a descompressão rápida dos preços de bens industriais e a desaceleração da atividade econômica devem gerar um processo de desinflação mais forte do que o esperado pelo mercado no momento, o que deve possibilitar, na visão da gestora, que os juros comecem a cair em agosto.
“Existe uma dúvida muito grande sobre como as expectativas vão se comportar caso o governo mude a meta de inflação. Pode ocorrer uma piora adicional das expectativas, mas não será algo suficientemente grande para atrapalhar a expectativa de corte em agosto”, diz.
Desde a reunião do Copom de março, as apostas de que os juros serão reduzidos a partir do terceiro trimestre, após o Conselho Monetário Nacional (CMN) definir as metas de inflação, ganharam força. Nas últimas semanas, inclusive, casas como Santander Asset Management e Quantitas abandonaram os cenários de uma flexibilização monetária que começaria somente em 2024. O Bocom BBM fez movimento semelhante e espera, agora, que a taxa comece a cair em setembro.
A economista-chefe do Bocom BBM, Cecilia Machado, revela que o banco passou a trabalhar com um cenário mais contracionista para a atividade no segundo semestre. Além disso, contribuições positivas dos preços das commodities e do câmbio justificaram a antecipação da previsão de corte de juros.
Diante de uma desancoragem provocada, em boa medida, pelas incertezas relacionadas às metas de inflação, será preciso entender se o Copom fará alguma ponderação sobre o “prêmio” contido nas expectativas, observa Machado. “As últimas falas dos membros do Copom deixaram um pouco a impressão de que o mais importante no momento é o processo de desinflação e de que não necessariamente teremos que ver uma convergência das expectativas para o centro da meta. Uma variação pequena na direção correta, nesse caso, poderia abrir espaço para cortes”, afirma.
É preciso apontar, porém, que o fôlego que a atividade tem sustentado pode fazer o BC manter um tom mais duro, destaca Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro. Em comentário semanal, ele aponta que a força dos dados de atividade mais recentes “coloca um desafio adicional para o Copom”.
Nesse sentido, Kawall espera que o comitê mantenha um discurso conservador e ressalta que os dados vão na direção contrária à visão de uma crise de crédito e de uma desaceleração mais intensa da economia. “Não é isso que os últimos dados sugerem e o Copom também vai refletir isso na decisão.”
O economista-chefe da Ágora Investimentos, Dalton Gardimam, tem visão semelhante, ao apontar que os dados do mercado de trabalho, do setor de serviços e da agropecuária não sugerem uma desaceleração forte. “Quando se olha para a atividade e para o hiato do produto, de maneira bem incontroversa, nada justifica um movimento da Selic nas próximas três reuniões”, enfatiza.
“Em agosto ou setembro podemos voltar a conversar. Claro que não será essa a arguição do Copom, que deve continuar a abordar os mesmos pontos, especialmente em relação às expectativas”, diz Gardimam. O único fator favorável tem sido a queda do dólar, o que é “claramente o mercado dando um recado”, diante da ideia de que não há motivos, hoje, para queda de juros. “É um mercado líquido dando um recado muito robusto de que as taxas não têm motivo para cair agora.”
Por Victor Rezende e Gabriel Roca, do Valor Econômico
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