Relembre a história da Ricardo Eletro, de 2ª maior varejista do Brasil à falência

Em 33 anos de história, a varejista Ricardo Eletro superou cenário de hiperinflação, crises econômicas e aumento da concorrência. Mas agora talvez esteja enfrentando a batalha mais difícil das últimas três décadas, ao tentar reverter a falência decretada na última quarta-feira (8).
A trajetória de altos e baixos de uma das maiores varejistas do país tem início em 1989 com Ricardo Nunes, na cidade mineira de Divinópolis. Dez anos depois, a marca chega à capital e já estava entre as maiores empresas de varejo eletroeletrônico do país, segundo a própria companhia. No início dos anos 2000, a varejista decide expandir para outros estados, como Bahia e Rio de Janeiro.
Além do crescimento orgânico, a empresa lançou mão da estratégia de crescer via aquisições. Um das primeiras a entrar para o portfólio foi as lojas MIG, que tinha forte atuação no Centro-Oeste.
Mas o ritmo de compras se acelera mesmo a partir de 2010, quando a Ricardo Eletro se une à Insinuante criando um dos maiores grupos varejistas do Brasil, a holding Máquina de Vendas. Neste mesmo ano, incorporou a Citylar, rede com atuação no Centro-Oeste e Norte, e a Eletroshop, com atuação forte em Pernambuco e em outros estados no Nordeste. No ano seguinte, é a vez da Salfer entrar para o conglomerado.
Em sua fase áurea, em 2014, a Máquina de Vendas chegou a ter quase R$ 10 bilhões em vendas, com 1,2 mil lojas e 25 mil funcionários, e se tornou o segundo maior grupo varejista de bens duráveis do país em número de lojas, atrás do Magazine Luiza.
Mas, com dificuldades para gerar sinergias e com o aumento da concorrência no mundo digital, a receita caiu cerca de 40% entre 2015 e 2017, segundo cálculos do Valor com base nos balancetes. Em 2017, a receita já havia recuado para R$ 6 bilhões, com 650 lojas e 13 mil empregados.
Nessa toada, em 2018, a empresa entra em uma intensa crise financeira, e, com o passar do tempo, desentendimentos na condução da operação e na relação entre os acionistas das redes regionais acabam levando à saída de quase todos os sócios. Nunes e Luiz Carlos Batista, ex-acionista do grupo e fundador da Insinuante, deixam o negócio naquele ano.
Endividada, a varejista tem a recuperação judicial decretada em 2020 e decide desativar as cerca de 300 lojas físicas para se concentrar nos canais on-line de vendas com pequeno portfólio de produtos.
Na tentativa de dar a volta por cima — e cortar custos —, a varejista lançou no ano passado um site novo, em parceria com a Infracommerce e a Vtex. Assim, todo o estoque foi migrado para a Infracommerce.
O capítulo mais recente dessa história aconteceu na última quarta-feira, quando a Justiça de São Paulo decretou a falência da companhia, dois anos depois de entrar em recuperação judicial. O grupo Máquina de Vendas também é alvo da decisão. A sentença cita “a identificação de diversos fatores de esvaziamento patrimonial” e menciona que a atual recuperação judicial “não reúne condições de prosseguimento”.
O endividamento total do grupo, incluindo passivos em recuperação, era de cerca de R$ 4,8 bilhões em dezembro de 2021, para uma receita líquida de R$ 7 milhões no ano passado, uma queda de 98% sobre 2020.
Hoje, a Ricardo Eletro é presidida por Pedro Biachi, ex-executivo da empresa de reestruturação Starboard. No organograma, a Ricardo Eletro aparece como controlada pela Máquina de Vendas Brasil, que por sua vez tem como dona a MV Participações. Por sua vez, a MV tem como sócio majoritário o fundo Reag 90 FIP Multiestratégia, este, fora da falência.
Para tentar reverter a situação, o grupo entrou na tarde de quinta-feira (9) com agravo de instrumento com pedido de efeito suspensivo contra a decisão na 2 Câmara de Direito Empresarial de São Paulo. No documento, diz que soube da sentença com “absoluto espanto”, que a decisão é “prematura” e que “não há esvaziamento com intuito de cometer fraude” na companhia.
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